3.3.12




Mergulhar, aprofundando-se nas misteriosas águas do viver. Eis o desafio que ignora meu jeito de querer entender situações em que as explicações não dão conta de apaziguar o coração  imerso em  questionamentos. Por que, para quê, qual  o sentido que se pode encontrar numa proposta de escuridão em plena fase de descobertas? De repente, vejo incorporadas ao meu vocabulário, palavras desconhecidas e ameaçadoras: retinose pigmentar,   acuidade, ceratocone...

Pequenas palavras que chegam inesperadamente como enxurradas que destroem as estruturas construídas ao longo do tempo. E, tempo é o que eu preciso agora, dizem. Tempo de fazer assentar ; Tempo de aceitar essa nova realidade familiar; Tempo  de experimentar a estranheza desse mundo desconhecido... Tempo. 

Por hora, o que sei é que meu olhar não percebe e ainda não alcança o mistério. Tateio, à procura de respostas.

4.11.11

EQUIVOCO

Passou a vida inteira acreditando
que
o monstro
estava do lado de fora

Jacinta Dantas

25.6.11

SENTIDO...SENTINDO




Em meio à tormenta  (re) sinto a perda. O tráfego  não flui e o congestionamento mostra que o excesso  depaupera o meu espaço. Percebo que não volta o que entra e sinto que meus vizinhos, dentre eles o coração e o estômago, ficam incomodados, estressados, mudam o ritmo e adoecem com o acúmulo. Atordoado, tenho consciência de que o ar  deve trafegar pela via com liberdade de entrar e sair no devido tempo, realizando as trocas com o ambiente. Troca... bonito esse jeito de viver que a vida propõe. Trocar, dar e receber – Inspirar o oxigênio e devolver gás carbônico – simples assim. Tão simples e tão complicado. E complicado se vive em tempos sem sentido. Sentido de quê?

Sou o que sou e ocupo o meu lugar em harmonia com os demais sistemas que sustentam a vida no corpo. Então, sei que também sou o corpo que tem em mim a possibilidade de expansão para o bem viver. No entanto, contraio-me ao ver o jovem, concebido e formado para trilhar o caminho do crescimento e da felicidade, ser agredido numa ação bestial promovida por outro jovem que bate sem ter por quê. De novo, o sentido sentindo a falta. Jovens, meninos ainda, numa reunião de ex-colegas de escola do nível médio, encontram-se para festejar e de repente...

_ Vou bater naquele ali.

E o que se vê é de faltar o ar que me faz funcionar bem. Garrafas quebradas, objetos roubados e o jovem ali, humilhado, sentindo um quê sem sentido a arder-lhe no corpo e na alma. Que conta é essa que não fecha? Que prazer é esse que se tem em agredir? Será esse o único modo de se mostrar vencedor diante do grupo? Mas vencedor do quê?

Na expectativa da falta, agarro-me e guardo o ar que posso, comprimindo-me e oprimindo-me, fechando as saídas. Desesperado, acumulo. Acumulo mais ar, qualquer ar e sinto-me transbordando prá dentro, entornando e envenenando o corpo que me abriga. Em mais uma crise,  tudo fica “ite”, e de novo trava-se a  luta –  de alma e corpo –  contra a tosse, o cansaço, a apatia, a impotência... na incessante busca do sentido da existência.  Será esse o sentido que falta em tempos abundantes de ofertas de felicidade?


Jacinta Dantas

22.4.11





Cada qual sabe amar a seu modo; 
o modo, pouco importa;
o essencial é que saiba amar.
Machado de Assis





Jacinta Dantas

3.4.11

TENTANDO DIZER ALGUMA COISA



E sou o que sou. Daria para ser diferente? Poderia ter escolhido outros caminhos? Mas, se diferente fosse, seria Eu?  Credo! Tudo parece ser tão complicado. São tantas perguntas que me faço sem encontrar as respostas.

...

O que sei é que em mim, a respiração rege a orquestra: quanto mais consciência tenho do meu Eu, mais equilíbrio, harmonia e beleza para a melodia tocada por todos os eus que fui e que, hoje, compõem o que Sou. Então, sendo o que sou, sigo

juntando as letrinhas,
vivendo na prosa,
proseando na vida,
e

tentando dizer alguma coisa.

Jacinta Dantas

27.3.11

TU EM MIM SOU EU
Arte: Vera Basile


Pensastes que ele estaria no evento, e, por isso, vestiu-se de esperança com ansiedade e foi. Mas, não, ele não apareceu. Resta-te o evento. No evento poderias encontrar outras pessoas, mas outras pessoas a ti não  interessam. E o encontro não aconteceu. Sabes que Amores relâmpagos, em prazeres fortuitos e afetos destinados a pessoas que não te retribuem, trazem angústia, tristeza... rejeição. E tu me carregas contigo por esses tortuosos labirintos.

Frustrado, procuras dormir iludido de que consegues fugir. Fugir de quem? De mim? Dormindo, tu sonhas, e sonhando buscas condições para equilibrar-te em terras flutuantes.  O sonho, recorrente tantas vezes, vem com olhos cerrados à procura de saídas criando situações que te fazem debulhar em lágrimas moldantes e reveladoras de quem tu és. E tu, mesmo sabendo  do que precisas, insistes em procurar refúgio, fugindo enquanto dormes. Dormindo, esqueces-te de mim. Vamos acordar.  Tu, também, és mim; então somos tu e mim, e tu em mim sou Eu, lembra-te?

Jacinta Dantas

22.3.11


LUA CHEIA DE GRAÇA

Agora sim: apesar do barulho, escuto o silêncio... respiro, vejo o silêncio, respiro...respiro... Respiro outono em noite de lua cheia, a mais bela Lua, cheia de graça e beleza, coroando o final da estação de corpos expostos reverenciando o Sol.

Sábia é a natureza: no intervalo entre o verão e o inverno, oferece-se em transição e renasce, com alegria, na estação das flores.

Imagem: Flor Dama da noite
Foto: fotoblog uol

Jacinta Dantas