31.10.09

CÉLULAS DESORDENADAS

Por aqui, o mundo chora. Chora, incessantemente doído, mantendo-me numa ilha de paredes úmidas. Em mim, vejo cheiros mofados invadindo o olhar inquieto de decisões para o futuro. Aprisionada, choro minhas dores em dores imaginadas nos que super popularizam as instâncias de passagem entre o provisório – que nunca acaba – ao definitivo que demora a chegar. Faço-me espelho nesse espaço em que não há espaço. Não há espaço para os amontoados em promessas de ressocialização, não há espaço para o restabelecimento da saúde, não há espaço para o curso, percurso que exige liberdade... não há espaço. Adoecidos, choramos o choro do mundo nas águas represadas em nós com angústias jogadas nesse candeeiro – autoforno de emoções – prestes a implodir ou explodir os diques desse sintoma social candente.

28.10.09

Em mim, há uma criança querendo misturar peraltices com seriedade. Há, em mim, uma criança adormecida, sonhando em incluir nas competições ácidas a satisfação de pular amarelinha.

23.10.09


Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; [...] a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.

John Donne

21.10.09

ANDO COM VONTADE DE CHUVA


Represado, enlouqueço. Vagueio, sem horizonte, desejando o sabor da liberdade no ritmo desprovido de máscaras letárgicas que me condicionam o percurso em margens seguras. Arriscar é preciso, sei. Arriscar, apesar do perigo, a me molhar de emoções que se reverberam em viço na pele. Pulsar sem riscos ofusca o brilho e diminui as expectativas da rede onde sou um elo importante. Quebrando a rigidez, posso deslizar suavemente por todas as células, e me alegrar no contentamento dos pelos eriçados que encantam os momentos no auge que estremece toda a estrutura. Ousado, quero a vida aspirada com prazer. Vida prazenteira, de corpo e de alma, alma e corpo que me abrigam, sendo único, em corpo e alma, pulsando, vibrando... Ando com vontade de chuva.

18.10.09

A FLOR DA FLOR

Adornada por lindas mangueiras e cheiro de alfazema que proporciona o frescor nas tardes ensolaradas, a rocha tem no seu campo de visão, o trajeto de momento ideal à frenética dança dos tijolos. Nas paredes, a marca de mãos talhadas e calejadas. No cerne, a vivência de tantos que nela se fazem criança, jovem, adulto, velho, em inesquecíveis momentos de celebração, da festa do nascimento ao luto da partida. Aos pés do rochedo, uma balzaquiana que já passou por tantas modificações, e continua se (re) organizando interna e externamente, tornando-se bonita e aconchegante. Agora, a outrora menina, percorrendo o seu interior, lembra-se da voz emocionada na sua inauguração, do brilho nos olhos ao sentir a beleza dos vitrais no vão central, o aconchego da celebração à meia luz em meio à "plantação de corações", a música... o consolo no adeus ao pai. Percebe que, em novos tempos, toda clarinha, ela continua fazendo história, contando história, e, o mais importante: Ele, com sua presença incondicional, é a “Flor da Flor”. Flor que se percebe nos passos que por ela passam, na voz que louva, pede e agradece, no olhar de menina e nos olhos que, do alto da pedra, velam o silêncio da noite e, às 07 da manhã, no corpo cansado do labor noturno, comanda uma flexão de joelhos sincronizada com o sinal da cruz, reverenciando o lugar que acolhe gente e pode ser espaço de entendimento, aceitação e convivência com as surpresas cíclicas do viver. Agora, a menina entende que o viver exige que se desconstrua para construir, às vezes do marco zero, um lugar novo para se reencontrar.


...


"Flor da Flor" - expressão bonita que escutei de um amigo. Gosto e intitulo esse texto que complementa os textos momento ideal e a frenética dança dos tijolos


Foto: Kenji Okimura

16.10.09

COMEÇANDO O DIA
Você é o meu despertador - disse o garoto.


- E o meu é a idade - replicou o velho.

- Por que será que os velhos acordam sempre tão cedo?

Será para terem um dia mais comprido?

Ernest Miller Hemingway

9.10.09

NO ENCONTRO, O BRILHO DO OLHAR

Cheiro de felicidade aproxima pessoas e o grupo está formado no grande encontro. Nos primeiros acordes, a lembrança de como tudo começou. Agora, sim, é a coroação do desejo de mostrar meu olhar escutando a emoção no olhar do outro. Não tem jeito: para mim é importante a troca de olhares, afagos e sorrisos com gente que tanta importância tem no meu viver. Por aqui, chegamos a ensaiar um café, num final de tarde, com amigos bem próximos, que moram na Ilha de Vitória. Mas, chega janeiro, vem fevereiro, os meses escoam pelos dedos, a vida segue e o encontro com o povo da terrinha ainda continua no campo das possibilidades. E por que é tão importante esse primeiro encontro de amigos blogueiros em nível nacional? Problematizo, constatando que ao longo do tempo, trocamos e nos tocamos ao tom de nossas letras. Acontecimentos importantes como a despedida de um pai, cirurgias, conflitos familiares, crise mundial, nascimentos, aniversários, formaturas... o Brasil sediando os jogos olímpicos – são olhares, por diferentes ângulos, em linhas e entrelinhas que fazem brotar textos, poemas, prosa, crônica... – no transbordamento da palavra nesse universo que se faz poesia. Em meio à festa, a certeza de que em frente de cada telinha há um ser cheinho de tudo que nos torna humanos, que nos torna um ser único e livre e que por ser único tem seu jeito particular de se expressar e se deixar mostrar. Gente diferente de mim que partilha comigo a vontade do encontro. Gente com jeito diferente de pensar e de sentir que se apresenta com disponibilidade, afetando e se deixando afetar na composição de laços entrelaçados em nós compondo beleza em rede, ajeitando nós e laços na identidade de um novo grupo: o grupo de amigos no mundo de blogs. Gente que é parte desse todo espalhado que precisa e merece se aproximar no que prá mim é primordial: no toque da emoção que se derrama no olhar. E, no olhar, o encontro se faz contentamento abençoado pela estação mais bonita da vida que espalha flores e cores em todos os sorrisos. No sorriso, a alegria, destaque entre os convidados, garante a harmonia nessa confraternização entre gente de todos os cantos. E, na correlação do olhar, vejo felicidade, abraços, apertos de mãos, arte, exposição, lançamento de livro e, vejo-me, com toda essa prosa, querendo responder uma pergunta. Ahhhhhhh! Sinto que não há uma resposta. Melhor mesmo é deixar que o encontro aconteça e respostas se façam em brilho. O brilho nos olhos por encontrar o brilho em outro olhar.



( texto de participação no concurso do 1º encontro nacional de blogueiros)