30.9.07

ENVELHECER
Bromélia: Força de vida

O poeta e cantor Gonzaguinha, sábio em suas palavras, canta e revela a dicotomia do dom maior – a vida. Como ele diz, “a vida é batida de um coração, é doce ilusão, maravilha, sofrimento...”. No entanto, é preciso “Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”. Dicotomia de prazer e dor, o homem vive, sobrevive, persistindo no propósito de enfrentar os desafios que lhe são colocados, dia-após-dia, frente à própria existência.

Viver cada dia, deixando-se encantar pela experiência de criar e recriar a ação do viver, que é perpassada por várias etapas, que vão moldando o jeito de ser e estar no mundo. E estar no mundo, de peito aberto, encarando e enfrentando as questões que lhe são colocadas é tarefa de todo dia. Mas, manter-se saudável numa atmosfera competitiva, que hostiliza os que são considerados menos competitivos é um desafio constante.

Cada momento do viver traz seus encontros e desencontros. Desde o nascimento até a morte são muitas experiências e muitas vidas num único viver. São pessoas em uma única pessoa. Criança, jovem, adulto, velho... homem ou mulher.

Envelhecer implica ter passado pelas diversas etapas, acumulando experiências, anseios e realizações no caminho que se trilha na estrada do viver. Viver, com 60, 70,100 anos ou mais, parece uma aventura que precisa ser acolhida e cultivada como parte importante no ciclo do existir: a complementaridade do círculo da existência humana.

Constato que há muitas visões em relação à definição do que é ser idoso. Percebo algumas diferenças nas concepções de ser idoso, velho ou indivíduo da terceira idade. São olhares que a meu ver, se complementam na essência da questão, que é a vida no envelhecer.

Uma possível definição para idoso é demarcada pelo limite de anos vividos. É o que prevê a lei 8.842 Brasil (1994), que considera como pessoa idosa aquela que tiver mais de sessenta anos de idade.

Há também a concepção de indivíduo da terceira idade, retratando o indivíduo como alguém que, ao longo da vida, vai se preparando para chegar à velhice em boas condições físicas, psicológica e social: uma busca constante do novo para habitar no velho?

Portanto, não se trata apenas da idade, mas de um ser que, na lógica tradicional da sociedade que descarta o que é velho, precisa se manter com atitudes jovens para continuar incluído.

Especulando sobre tornar-se velho ou ganhar idade, a palavra tem o poder de dar o significado. Em português, envelhecer tem no seu radical a palavra velho que em nossa cultura dá a idéia imediata de algo que perdeu o uso, algo que deve ser descartado.

Em outras culturas a palavra apresenta outro significado. Em inglês, a palavra old significa velho. Para envelhecer usa-se aging, palavra que tem como radical age, que na tradução para o português é idade. Logo, aging significa acrescentar idade.

Em japonês utiliza-se o termo Karei. Este tem como radical Kawaeru, que significa somar, acrescentar, e rei que significa tempo de vida.

Na verdade são palavras com a força de dar significados ao que é dito. O som da palavra velho sugere desgaste, coisa que deve ser descartada. Mas, como fica quando o velho se trata de pessoa?

Percebe-se, então, que a

[...]maturidade e a velhice, desde sempre, constituem desafios a todas as sociedades humanas, sobretudo no mundo moderno, cuja dimensão social encontra-se centrada na juventude, como mito e valor que orientam a percepção de mundo e a compreensão possível da vida (GUSMÃO, 2001 p. 113).

Interessante, também, é a visão de Pereira e Gomes (2002) que dizem que o envelhecimento participa dos jogos conflitantes propostos e sustentados pela legitimação social do ser com uma imagem de jovem, cidadão bem sucedido, mulher em ascensão. Jogos que a sociedade mantém e os impõe ao indivíduo.

É, também, uma constatação que Neri (2003) faz ao dizer que aparece a situação e o lugar do idoso contrastando com a eterna necessidade de busca pelo que é novo, por rapidez nas informações, desprezando as pessoas, que por algum motivo já não participam da dinâmica consumista e descartável do momento.

Para mim, é comum vermos nos discursos e práticas cotidianos, uma relação cruel que culpabiliza a pessoa pelo seu processo de envelhecimento ter chegado a muitos anos vividos. Uma exacerbação do velho como coisa descartável que transparece em atitudes como considerar o velho como um peso a ser suportado. O culto à beleza, aliado ao desejo da eterna juventude, parece ditar as normas – só se é belo enquanto se tem juventude.

Mas há, também, outra dimensão no olhar voltado para a questão. A meu ver, mais uma forma de separação do que de agregação. Vemos o emergir de um mercado que se coloca a serviço da clientela da 3ª idade. É como se houvesse dois tipos de velhos. Àquele que pode ter acesso aos bens e serviços, considera-se indivíduo da 3ª idade, ao que não tem, considera-se velho?

Um paradoxo, pois caminhamos a passos largos para a constituição de uma sociedade na qual em poucos anos haverá um grande número de pessoas com mais de sessenta anos, uma vez que, de acordo com dados estatísticos do IBGE, (apud Pascoal, 2002) em 2000, contava-se com 8,3% de idosos no Brasil, com expectativa de um crescimento populacional que chegará a 15,1% em 2025.
No que se refere ao crescimento populacional de idosos no Brasil, é a partir da década de 1970, com a diminuição da taxa de fecundidade e com o aumento da expectativa de vida que, consequentemente, a população idosa vai crescendo.

Portanto, um número maior de pessoas, e não mais alguns poucos que conseguiam viver muito. São situações vividas por muitos, como diz Vitale (2003, p. 99) ressaltando que “a condição de ser avó ou avô se modifica ao longo do percurso de vida: os belos anos do ser avós podem dar lugar a anos mais difíceis”,.

Sabe-se que são muitos os mitos que recaem sobre a velhice, como dizer e acreditar que velho não aprende nada, velho é improdutivo, e tantos outros. Nas ruas, é comum presenciar um motorista de transporte coletivo reclamando por ter que parar o veículo para o idoso entrar. Muitos reclamam da lentidão e muitas vezes argumentam que velho deveria ficar em casa descansando. No entanto, são pessoas que têm o diferencial dos demais por terem vivido mais anos e continuam vivendo, com direitos e deveres como cidadãos que merecem todo o respeito.

No que se refere ao desenvolvimento, Neri (2003, p.39) chama a atenção ao dizer que “o envelhecimento resguarda o potencial de desenvolvimento, dentro dos limites da plasticidade individual”, o que equivale dizer que muitos idosos mantêm sua capacidade intelectual, podendo, inclusive, adquirir novos conhecimentos.

É o envelhecer como um processo, concebendo a velhice como continuidade. É o que Simson e Giglio (2001) falam sobre o envelhecimento como um processo de perdas e ganhos, chamando a atenção para a possibilidade de se conservar as competências e habilidades intelectuais. E sendo processo, Neto (2001, p.41) afirma que “do ponto de vista biológico, envelhecer não é apenas ficar velho. Na verdade o que temos é um processo de alterações morfológicas e funcionais do organismo à medida que o tempo passa”.

São contribuições das visões de estudiosos da psicologia, gerontologia, biologia e sociologia que tratam do envelhecer como um processo de transformações biopsicosociais, que se coloca como mais uma fase do desenvolvimento humano a ser vivida plenamente, com suas conquistas e dificuldades que são inerentes ao viver.

Outras pesquisas apontam as diferenças do significado da velhice na antiguidade e na sociedade moderna. Para o Taoismo, uma doutrina de Lao-Tse, o fim supremo consiste na longevidade, mas, na realidade contemporânea, a velhice pode trazer significados depreciativos, como erosão (representado pelas rugas e flacidez do corpo), descarte ou desuso (como trocar o móvel porque esta fora de uso).

Nos dias de hoje, percebe-se ainda que muitos velhos estão colocados numa situação desconfortável. Embora, com suas aposentadorias ou pensões, em muitas famílias, sejam responsáveis pela ajuda financeira nas despesas domésticas, o lugar que ocupam em algumas situações traz a idéia de não ser mais útil, pois foram gastos pelo tempo.

Contudo, retornando ao âmbito jurídico, os princípios que regem a política nacional de atenção ao idoso (Lei 8.842/94) buscam assegurar-lhes os direitos à cidadania, à informação do processo de envelhecimento, e, principalmente (grifo nosso), “à importância do idoso ser agente e destinatário das ações políticas que versam sobre o seu lugar”.

Destacando, então, o princípio IV da referida lei “O idoso deve ser o principal agente e o destinatário das transformações a serem efetivadas através desta política”. Constata-se, assim, que como agente de transformação, o idoso continua no comando de sua vida, sendo sujeito participante. Ter voz e vez para discutir suas próprias necessidades e possíveis encaminhamentos confere-lhe um novo ânimo, oportunizando ao idoso um colocar-se na vida enquanto pessoa, com seus sonhos e suas realizações cotidianos.

Acerca dos aspectos psicológicos do envelhecimento, Neto (2001) em trabalhados realizados, indica que, embora envelhecer e adoecer não sejam sinônimos, existe o fato de que algumas enfermidades são mais freqüentes em pessoas idosas (visão e audição diminuídas, problemas cardíacos, reumáticos...), mas, no geral, ser velho não é o mesmo que ser doente, e, como velhice não é doença, não é a velhice que tem que ser tratada, mas sim a pessoa no seu processo de envelhecimento.

Sinto-me privilegiada por ter a oportunidade de estar próxima a pessoas que já viverem muitos anos, com o propósito de acolhê-las e aceitá-las incondicionalmente, do jeito que são, dando minha contribuição no seu processo de continuar vivendo, um dia de cada vez, descobrindo e redescobrindo o seu jeito de ser pessoa.
Sinto, também, que a convivência com o idoso, parafraseando Baldessin (2002), proporciona-me uma dimensão de complemento da existência humana, revelando, inclusive os tempos de vida e morte, vigor e fraqueza, plantar e colher, grandeza e fragilidade do ser.

A vida, dom de Deus, é única, intensa e plena. Vivendo um dia de cada vez experimenta-se o sabor de fazer o caminho e chegar...E recomeçar, fazendo outros e novos caminhos.

REFERÊNCIAS

BALDESSIM, A. O idoso: viver e morrer com dignidade. In: Netto, M.P. (org). Gerontologia. A velhice e o envelhecimento em visão globalizada. São Paulo: Atheneu, 2002. p. 491-498.

BRASIL. Lei n° 8.842, de 04 de janeiro de 1994. Dispõe sobre a política nacional do idoso: cria o conselho nacional do idoso e dá outras providências. Disponível em: htlp://www.planalto.gov.br. acesso em 05 dez.2005.

DEPS, V.L. Atividade e bem-estar psicológico na maturidade. In: Neri. A. L. (org). Qualidade de vida e idade madura. 5ª ed. Campinas: 2003. p.57-82.

GATTO, I. B. Aspectos psicológicos do envelhecimento. In: Netto, M.P (org.). Gerontologia. A velhice e o envelhecimento em visão globalizada. Atheneu, São Paulo: 2002. p.109-113.

GONZAGUINHA, L.G.J. O que é o que é? Intérprete: Chico Hosken. In: Lual, ao vivo: Ox comunicação. 1 CD, faixa 17.

GUSMÃO, N.M.M. A maturidade e a velhice: um olhar antropológico. In: Neri, A. L. (org). Desenvolvimento e envelhecimento. Perspectivas biológicas, psicológicas e sociológicas. Campinas: Papirus, 2001. p.113-139.

NERI, A.L. Idosos. Veja. São Paulo: 2003.

NERI. A. L. Qualidade de vida no adulto maduro: interpretações teóricas e evidências de pesquisa. In: ________. (org.). Qualidade de vida e idade madura. 5ª ed. Campinas: Papirus, 2003. p.9-55.

NERI. A. L. Bem-estar e estresse em familiares que cuidam de idosos fragilizados e de alta dependência. In: _______. (org.). Qualidade de vida e idade madura. 5ª ed. Campinas: Papirus, 2003. p.237-282.

NETO, E.J. Tornar-se velho ou ganhar idade: o envelhecimento biológico revisitado. In: Neri, A. L. (org.). Desenvolvimento e envelhecimento. Perspectivas biológicas, psicológicas e sociológicas. Campinas: Papirus, 2001. p.39-52.

PASCOAL, S.M.P. Epidemiologia do Envelhecimento. In: Netto,M.P. (org.). Gerontologia: A velhice em visão globalizada. São Paulo: Atheneu, 2002. p.26-43.

PEREIRA, E.A; GOMES,N.P.M. Flor do não esquecimento: cultura popular e processos de transformação. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. 301p.

SECCO, C. L. T. R et al. As rugas do tempo na ficção. In: Envelhecimento e saúde mental: uma aproximação multidisciplinar. Cadernos IPUB, Rio de Janeiro: 1999. p.9-31.

SIMSON, O R.M; GIGLIO, Z.G. A arte de recriar o passado: história oral e velhice bem-sucedida. In: Néri. A.L. (org.). Desenvolvimento e envelhecimento. Perspectivas biológicas, psicológicas e sociológicas. Campinas, São Paulo: Papirus, 2001. p.141-160.

VITATALE, M.A F. Avós: velhas e novas figuras da família contemporânea. In: A COSTA, A.R.V(org). Família: redes, laços e políticas públicas. São Paulo: IEE/PUC, 2003.p.90-105.

JacintaDantas

5 comentários:

Dauri Batisti disse...

Fico feliz que tenhas criado o teu blog. Bonito, a começar pelo nome. Bonito também por te propor uma estrada, aquela que passa pelas tuas palavras. Palavras que no teu texto ficam como casas, montanhas, nuvens, árvores, paisagem de uma terra grande, que é o coração de cada um.

Dauri Batisti

Ana Paula disse...

Através de outro blog visitei o florescer. Nome sugestivo para o seu tema. Gostei. Envelhecer com dignidade é tudo de bom. Parabéns.
Ana Paula

Wellington Felix disse...

Wellington Felix disse...
Muito obrigado querida amiga pela sua visita, pois é de olhares como o seu que ressuscito-me poema dentre ventos e palavras essa cor escarlate que me (te) a-cord(a)e

3 de Novembro de 2007 07:56

(e)terno

Sempre em meus poemas sinto a presença do tempo ele bate para entrar sem cessar, bate em mim nos relogios e em todos, ele se aproveita de qualquer fresta, ou mesmo de um pequeno espaço entre sílabas e palavras e entra sem liçença , oxida e envenena os dias trazendo inexoravelmente a noite, por vezes a eterna, porque ele nunca cessa? (não da um tempo...)
- Por vezes apressadamente outras lentamente dependendo daquelas escolhas, maravilhosamente tantas!
Ontem um amigo fez 50 anos e descobri que o tempo mais precioso, nos não conseguimos medi-lo nem nas rugas, nem nas fotografias nem contando minutos e anos, esse tempo só tem medida em poemas, em abraços e quereres; Você ja conseguiu colocar dentro do tempo aquele abraço? quando dois corações frente a frente se comunicam e o tempo para,



para aquele encontro de almas.

E voce paira em outra dimensão, e sente o:_ tum.....tum... tum..tun..tun.tun, não mais sabe se é o seu coração ou o do outro que sobressalta, ao mesmo tempo preso nos braços do abraço, voce é a mais livre das criaturas e voa num paraiso sem chão,
"no mais precioso da sua historia num tempo sem horas"
n'aquele pequeno encontro de braços e corações onde as almas se tocam. Não tem intenções, pois vai alem da intenção, ja é a intenção maior no ato da entrega!
P'ra mim fica fora do tempo e espaço, tocando não com as mãos, mas com dois corações a eternidade.
ps. não economize abraços!
Um e-terno abração.

APPedrosa disse...

Ainda Gonzaguinha, "é a vida... sempre desejada, por mais que esteja errada, ninguém quer a morte, só saúde e sorte"...
Uma das minhas músicas preferidas. Bom encontrá-la aqui.
Ana Paula

Eurico disse...

Vim te ler no nascedouro. Na tua primeira postagem. Anunciavas aqui a leveza e a ternura de um blog que é um verdadeiro oásis.
Vim te ler, amiga. Cá onde a fonte começa a jorrar. Quero entender mais de ti. Sinto-me tão bem aqui, que busco as tuas origens. Paz, muita paz acho aqui.
Beijo, Flor!