9.1.08

DOIS DEDINHOS DE PROSA

De longe, passeando pela praia de Jabaquara, percebi que ele estava compenetrado. Sentado no banquinho de madeira, parecia extasiado, completamente entregue às maravilhas que o lugar lhe proporcionava. Coloquei-me ao seu lado, e, respeitando seu silêncio, fiquei ali, ouvindo o som das ondas que vinham e voltavam, num compasso que mais parecia um canto de paz. Nossos olhares se cruzaram e pensei que no seu olhar havia nostalgia, como se recordasse tempos passados vividos de alegria, dor, tristeza, euforia...

Interrompi o silêncio com um sorriso. Carinhosamente ele me estendeu a mão num gesto de desejar que o dia fosse bom. O alvorecer para ele começara muito cedo e eu ali, atrapalhando aquela contemplação do passado. Sentimento que se desfez a partir do cumprimento de bom dia. Em dois dedinhos de prosa, já sabia seu nome – Sr. Bento – nome imponente do homem que viveu mais de 50 anos no mar e do mar, no oficio de levar e trazer pessoas, produtos e o que mais precisasse sair ou voltar para a Praia de Jabaquara.

Trabalhou de sol a sol, e, como barqueiro, teve o mar como companheiro e parceiro na luta do dia-a-dia para prover o sustento da família. Tempos difíceis de dias em que só dava para comer uma única vez. De um jeito jocoso, afirmou não concordar com o refrão da música, imortalizada na voz de Bete Carvalho, que diz: no tempo do “dérreis” e do vintém se vivia muito bem... Sem medo de errar, e com jeito de quem reconhece a beleza das coisas boas da vida, enfatizou que agora é que se vive muito bem, complementando que o tempo de hoje é muito melhor.

E ficamos ali, proseando. Em poucos minutos de conversa orgulhosamente ele foi contando que criou 10 filhos e agora, na sua família, tem advogado, professor, funcionário público graduado, médico e até uma bisneta que mexe com o mar (a profissão da bisneta ele não soube dizer). Fez questão de se levantar e, apoiado em sua bengala, convidou-me para caminhar. Caminhamos juntos, lado a lado à beira mar e chegamos a uma Igrejinha. Tirando o chapéu, fez o sinal da cruz e logo foi dizendo que a Igrejinha de São João fora construída por ele. Depois corrigiu dizendo que não a fez sozinho. Um amigo seu também participou de frente na construção – mas ele foi o cabeça que comandava o pessoal.

Do alto de seus 87 anos, acenando com o chapéu e voltando o olhar para o céu, relembrou vários amigos que já partiram para a morada de Deus, inclusive o companheiro na construção da Igrejinha. No rosto, os sulcos, marcas esculpidas pelo tempo, vão remodelando seu olhar diante da vida. Já não há mais a correria, pois esse mesmo tempo, segundo ele, agora corre a seu favor.

Voltei para a pousada feliz com a intensidade daquele olhar que reverencia o céu e o mar. Quanta sabedoria acumulada em suas experiências eu poderia explorar. Dos instantes que passamos juntos ficou a dimensão do encontro com o outro no encontro comigo mesma. Ficou, também, a experiência de vivenciar o dia com alegria, valorizando o que se conquista de bom no caminho feito. E, na despedida, senti saudades de outro velho que também já partiu. Meu velho pai, que com o ofício de carpinteiro, como o bom José, deu sua contribuição para a formação da pessoa que sou hoje. Então percebi que a nostalgia era minha.

12 comentários:

Lunna Montez'zinny disse...

A nostalgia sempre acaba sendo nossa. Não é? Um espanto nosso com nossas vilas. Que delícia esse seu encontro. Que momento saudável. Trouxe-me suspiros e sorrisos aqui.
Abraços meus...

Francisco Sobreira disse...

É tão bom, Jacinta, conversar com pessoas da faixa etária do Seu Bento. O interlocutor aprende muita coisa e a conversa lhe dá matéria se ele for escritor. Um bom texto, minha cara. Abraço grande.

disse...

Que linda história, moça! É tão bom quando encontramos pessoas assim, dispostas a nos contar sua vida, e assim, nos ensinar nas entrelinhas! Bjos

Moacy Cirne disse...

Minha cara, nosso chão é o nosso sangue. E certas pessoas valem por uma vida. Abraços.

Dauri Batisti disse...

Bom ver você fazendo o seu caminho. Tomara que outros encontros aconteçam na sua vida, sem medos, sem sustos; mas também sem necessariamente ter que ser um encontro com um "sábio",
estes demoram mais. rsss.

Dauri Batisti

Adriano Caroso disse...

Esse seu post me fez lembrar de várias coisas. Primeiro da música de Francisco Santana, e não de Beth Carvalho como você fala, "Saco de Feijão", embora ela tenha sido a intérprete que a imortalizou, depois de "Filho Adotivo", música de Sebastião Ferreira da Silva e Arthur Moreira que Sérgio Reis pintou em tela musical. Por último, no meu avô Zé Ribeiro, que pouco conheci mas de quem sou fã até hoje. Três coisas que marcaram a minha vida! Belo texto!

Enéas Bispo disse...

Que primor de texto.
Bom seria se todos nós tivessemos a paciência de escutar aqueles que mais viveram e muitas histórias de vida tem para nos passar.
Beijão.

Luis Eustáquio Soares disse...

salve, jacinta, obrigado pela visita e de fato vivemos sob o signo do seqüestro da experiência, eis a verdadeira pobreza, só que inscrita, como marca de caim, no rosto de todo rico.
b
luis

verabasile disse...

Lindo Jacinta!!!!
Me emocionou demais essa sua historia, a maneira como foi contada, me envolveu do início ao fim!
Muito lindo mesmo esse seu relato!!!
mil bjs
ps: estou dando um tempinho lá no Lólus13, fim de amor é fogo...rs
vou viajar e espero renovar minhas energias pra 2008...

Madalena Barranco disse...

Jacinta, cada vez que entro em seu blog, sinto o perfume da paz tomar conta de minha tela acesa. Que presente da vida ganhar o olhar de um ancião com tamanha riqueza interior. Bela crônica, querida, e muito obrigada pelas suas belas palavras deixadas em meu bloguinho. Beijos.

Plinio Uhl disse...

O melhor de conhecer pessoas é reconhecer nelas seus próprios sentimentos, é descobrir-se através delas. E, hoje em dia, poucos têm a capacidade de revelar tanto sobre si em tão pouco tempo. E você faz isso através de suas linhas. Parabéns pela paixão com que escreve.

A propósito, a neta não seria oceanógrafa? rs.

Bjuz.

Analuka disse...

Maravilhosas , as fotos! Adoro flores... e o texto reflete matizes e perfumes de uma alma delicada, sensível. Bom descobrir este jardim! Beijinhos pintados.