29.7.08

AMIGO, VOU FALAR ...

Não, não vou falar da violência que dia-a-dia fica mais próxima. Não, Não vou falar da violência que destrói sonhos e interrompe projetos. Não. Não vou falar da violência. Vou, sim, homenageá-lo com as palavras de Evandro, pois a forma brutal que ceifou sua vida, antes dos 31, não embrutecerá os corações dos seus alunos, colegas e amigos que, daqui, anseiam pela humanização dos homens e mulheres que vivem nessa terra. Não, não vou falar da violência. Ainda haveremos de cultivar, nos canteiros do coração, o sentimento de paz.

Por Evandro Dantas

Pois é Jeferson, o destino nos prega cada peça. Ainda ontem estávamos juntos, rindo, contando causos. Ríamos até de nós mesmos, lembra? Éramos tão felizes e brincalhões que parecíamos crianças prestes a ganhar um sorvete. -Ah, mas eu não concordo em dar este tanto de ponto por causa de uma gincana! -Olívia, este aluno mal freqüentou as aulas, vamos passar por cima da LDB agora? -Eu fiz concurso para professor do Ensino Médio! Aí aparecia o Jéferson turrão, cri-cri, como muitos diziam, que gostava de tudo ao pé da letra, nos mínimos detalhes. Ainda bem que estes surtos eram ocasionais, amigo, mas serviam para mostrar uma personalidade forte e séria. Falar em despedida tem sempre um tom de nostalgia, mas queremos, pelo menos tentamos, evitar isso, para que fique resguardada a pessoa feliz que você foi e, principalmente, que irradiava uma felicidade contagiante. Não temos saudade do que faríamos, se você não tivesse partido. Temos saudade do que deixamos de fazer, enquanto estávamos juntos, pois, como dizia o poeta, nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram. E como sonhamos, não é amigo? O orgulho da graduação na UFES, a pós-graduação, a primeira efetivação no estado, a efetivação na prefeitura! Sonhos de longa data que se cumpriram. Mas é difícil aliviar a dor do que não foi vivido. Talvez se nos iludíssemos menos, arriscássemos mais, ouvíssemos mais músicas, lêssemos poesias, tivéssemos mais simplicidade, só Deus sabe! Por outro lado, a imagem que restou para a gente foi a de uma pessoa que soube ser feliz até o último instante da vida, pois viver feliz é a coisa mais rara do mundo e você soube conciliar bem a vida com felicidade. Muito obrigado por fazer parte de nossas vidas.

(Homenagem ao Biólogo e Professor Jeferson que teve seu trajeto, projetos e sonhos interrompidos pela ação cruel da violência)
....e ele tinha apenas 30 anos

23 comentários:

Adriano Caroso disse...

Parabéns Jacinta pela postagem. Linda homenagem. Como vc vê, seu amigo aqui não esqueceu o Florescer! Beijos!

Dora disse...

Não conheci o homenageado. Mas, entendi que foi vítima da violência.
E as palavras do texto, que Evandro Dantas colocou, penso que seriam as palavras que você usaria.
Fica aqui um sentimento de perda que partilho com você e todos os que conviveram com Jeferson.
Fica aqui meu desejo de que, mesmo na violência, todos escolham palavras de paz, como vocês fizeram, para homenagear uma pessoa que teve a honra de receber a designação de "amigo".
Bonito seu gesto.
Abraço você.
Dora

Filipe Garcia disse...

Olá,

bela homenagem. Infelizmente, a gente sabe que essa não será a última vítima da violência. E, daqui pra frente, viveremos, sempre e cada vez mais, com essa revolta entalada na garganta. Viveremos com esse grito incontido, com esse desespero e com apenas uma coisa entre as mãos: a esperança.

Lamento muito pela perda.

Um abraço.

Osvaldo disse...

Oi Jacinta;
Caramba,... este é um dos post's que fazem parar para pensar.
Porquê a vida é assim ?...
Mas mais que tudo esta bela e sentida homenagem que você prestou à amizade e ao amor humano.
Parabéns.
bjs.

Alice disse...

muito bom ! muito bom ! muuuuiiitttoooooo bommmmmmmmmm !!!!!

bjkass

Francisco Sobreira disse...

É, Jacinta, a violência aumenta a cada dia e até nas cidades de médio e pequeno porte. Vejo a diferença da Natal de hoje e da que conheci quando aqui cheguei nos anos 1960. E gostei do texto do Evandro. Um abraço.

Graziele Alencar disse...

A gente escuta falar sobre violência na televisão todos os dias, mas quando acontece com alguém próximo dá uma sensação tremenda de impotência, uma descrença total.
Sinto muito pelo seu amigo.
Muita força pra você!
Beijos.

Paulo Vilmar disse...

Jacinta!
Que alegria voltar a passear pelo teu jardim, cada vez mais florido e belo...
E que fique a lição da homenagem, a violência não embrutecerá nossos corações nem encontrará guarida em nosso dia a dia. Fiquemos com Jeferson, alegre, feliz, turrão e com as centenas de chamas que ele plantou (como bom biólogo), no coração de nossos jovens!
Beijos.

Elenilson Nascimento disse...

Olá, estou aqui para convidá-lo a conhecer a LITERATURA CLANDESTINA:
http://literaturaclandestina.blogspot.com/
Conto com a sua presença por lá . Um abraço Elenilson

JOICE WORM disse...

é lamentável, Jacinta. Contra a violência não temos respostas, apenas o coração que chora calado...

NANDO DAMÁZIO disse...

Poizé, Jacinta, é por coisas assim que eu sinto medo de andar livremente nas ruas, principalmente aqui no Rio de Janeiro, onde a situação é bem crítica.

Infelizmente a gente está perdendo nossa liberdade e nos tornando prisioneiros da violência.

Lamentável mesmo o que aconteceu com o Evandro.

Mel disse...

Que sejamos abençoados pela paz.

acqua disse...

A realidade trás esse desconforto, essa coisa que não pode ser humana, mas que existe através do humano.
Meu silêncio fica aqui.
Abraços meus

Não tente me entender... disse...

Bela omenagem!


Este mundo é simultaneamente pequeno e imenso
pequeno se, na mediocridade dele te confinares
imenso se, pela arte dele te evadires...


Neste sábado estarei na gravação do programa "Criança Esperança"
Bjs

Claudinha disse...

Muito bonita a sua atitude! Brindar a violência com fotos violentas e textos violentos é errado. Você e sua homenagem ao jovem dão um tapa de luvas naqueles que deveriam olhar por nossa segurança. Que Jeferson esteja em paz!
Um beijo!

APPedrosa disse...

Linda homenagem. Triste quando a violência chega tão perto. beijo

Opuntia disse...

Acontecimentos como este são cada vez mais comuns, mas isso não nos faz acostumar com eles. Não, não endureçamos os nossos corações!

Linda homenagem!

Fernando Rozano disse...

até quando a violência ceifará cada um de nós? a cada dia morremo mais um pouco. bela e sensível homenagem. beijo, Jacinta e uma abraço fraterno.

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

É amiga,
Difícil dizer até logo quando a partida é abrupta, inesperada, violenta... por isso ainda estamos aqui... precisamos evoluir.
Eu creio num mundo melhor, creio que um dia ainda vamos nos encontrar, eu creio...
Meu abraço fraterno e a certeza de que estou aqui, à disposição
beijos e luz

RESSACA disse...

Aqui nasceu o Espaço que irá agitar as águas da Passividade Portuguesa...

Maria disse...

Bela homenagem mesmo !!!
Beijoo

eder ribeiro disse...

às vezes eu me pergunto aonde a raça humana esta se encaminhando com todo este embrutecimento, e o que me entristece é que não vejo outra saída senão um caos para que possamos renascer. bjos.

dácio jaegger disse...

Estupefação! É a sombra que paira sobre nós pelas perdas de amigos, conhecidos e desconhecidos quando são suprimidos da nossa vida a troco do nada. Por atos bestiais, estes que eram das batalhas e das guerras, hoje nos cerceiam e praticados, não por guerreiros mas pelas bestas feras que se escondem atrás de rostos comuns. Gostei muito do que li, Evandro sabe, de seu paradeiro, do seu merecimento. Beijo