18.7.08

NAS ONDAS DOURADAS
Imagem: fotoblog uol
Aos amigos íntimos ele confidenciou que a menina, fazendo-lhe um afago na testa, disse-lhe para ficar tranquilo: a Onda chegaria na tarde daquele setembro...

Muitos anos se passaram desde aquele primeiro encontro. Suzana relembra sua meninice refletida na pureza da lua, colocando-se à disposição de Pedro, com ouvidos atentos e seus dedos ágeis, escutando e transcrevendo sua história de vida em letras datilografadas que mais tarde se transformariam no livro gostoso de ler. Uma história que, sem obedecer a nenhuma ordem do tempo, revelava-se, em forma romanceada, o olhar de um homem sobre a cidade, a missão, as escolhas... a vida. Com o encantamento que lhe era próprio na adolescência, Suzana trazia nos olhos negros o brilho das descobertas nos seus poucos mais de 15 anos, contrastando com a serenidade do olhar azul daquele homem que já vivera mais de 70. Aos poucos ia conhecendo a diversidade de papéis que aquele irmão-avô exercera em tantas vidas vividas e ela estava ali, escutando em primeira mão, suas vivências no trajeto percorrido: diretor de uma grande editora, suas viagens pelo Brasil e pelo exterior, o enfrentamento nos tristes anos de ditadura, o exercício de sua missão... Várias tardes convivendo com um homem que trazia na bagagem muita cultura e nenhuma ostentação de luxo ou riqueza apenas a vida vivida para servir. Sempre que era possível, a “menina” convidava o recém chegado para uma caminhada, no final da tarde, nas areias da Praia da Costa. Tudo era novidade; O velho homem que veio de Minas e escolhera a Vila para usufruir os belos dias da aposentadoria, e a jovem, com vontade de percorrer a trilha, animavam-se na conversa informal (que não seria transcrita para o livro), pois ali na areia, se dava o caminhar da amizade no compasso que demarcava o encontro do passado com o futuro. Pela primeira vez, Suzana, a menina que morava no morro, tinha contato com palavras até então desconhecidas por ela, como empatia, autenticidade e fitoterapia: uma das paixões daquele velho meio bruxo, meio santo, que amava gente e se dedicava à busca da cura para os males do corpo. E, mais que remédios fitoterápicos, Pedro oferecia presença, calor e afago, emprestando-se à pessoa que estava doente, com sua simpatia e simplicidade franciscana. Agora senhora de si, Suzana relembra esses tempos, passeando pelo mesmo lugar – a mesma praia que agora é outra – toda iluminada, outra água, outro céu, outra lua? Por que essa parte vivida intensamente não constara no livro? Muitos anos se passaram e a presença de Pedro continua forte em sua vida. Ele a chamara e ela estava ali, mais uma vez à disposição do encontro, o último, talvez? Muita história acumulada, mas o momento não pedia palavras. Nos passos lentos que davam movimento ao corpo que conseguira transpor nove décadas de vida, Pedro e Suzana entrelaçaram as mãos e sob a cumplicidade do mar olhavam-se, caminhando no compasso do silêncio, sem deixar pegadas. Cada passo era novo e único: as ondas iam e vinham em deliciosas espumas que lhes acariciavam os pés e apagavam o passo dado. Naquele novo encontro, a sempre “menina” fez-lhe companhia em todas as ondas, mantendo-se firme, com os pés fincados no chão. De repente, sem que ela percebesse, seus dedos se desvencilharam e Pedro calmamente foi ao encontro de seu caminho. Suzana, paralisada com a beleza da onda, só percebeu o sorriso. O mesmo sorriso que a conquistara no passado agora lhe dizia que ele precisava partir e partir sozinho no caminho que ora em diante só caberia o seu caminhar. Não havia mais como participar. E, sorrindo, Suzana viu Pedro pela última vez, deixando-se levar nas ondas douradas, no final da tarde no mês de setembro.

37 comentários:

Luis Eustáquio Soares disse...

No final da tarde, nas ondas dourdas, no mês de setembro, deixar-se levar, permitir-se à despedida;amar, dourdamente, enfim e em começo, porque não prendemos, soltamos.
b
luis de la mancha.

Francisco Sobreira disse...

Jacinta,
O vínculo entre aqueles dois seres, ao longo do tempo, que poderia não se realizar pela grande diferença de idade, é relatado de uma maneira que nos maravilha, pela beleza da escrita( o que não é novidade para os que a lemos)e pelo atrativo do tema. Um beijo.

Dauri Batisti disse...

Ficção e realidade, invenção e amizade, terra e mar. O velho "bruxo" das plantas, a menina do morro marinho. Bonito.

Miguel disse...

Jacinta, você escreveu uim poema em forma de prosa. Lindo, simples, romantico e triste.
Tenho um poema mais ou menos no mesmo tema, O ""\BONDE DA FELICIDADE. "
Só que o meu, no final, prenuncia a esperança e o teu o adeus, o fim.
Foi muito bom te ler novamente.

Zeca disse...

Um texto leve, percorrido com a suave tranquilidade com que a menina aceitou despedir-se do amigo que chegou, afinal, ao fim de um caminho e início de outro, apenas dele. Lindo! Beijo.

Eurico disse...

Puxa vida!!! Ando a busca disso, dessa compreensão da velhice, dessa forma profunda como vc moldou o personagem Pedro. Lembrei Caetano: "o homem velho deixa a vida e a morte para trás, já tem coragem de saber que é imortal".
É isso, amiga! Tua delicadeza refloresce a cada postagem.
Abraçamigo e fraterno.

eder ribeiro disse...

o interessante de tua prosa é que ela é poética e quem a ler mais do que satisfeito degusta cada frase como verso. bjos.

Camilla Tebet disse...

Que lindo texto. QUe lindo. Beira a poesia, se atreve na prosa e acaba numa linda declaração de amor aquele que passou e deixou marcas de caminhos.
Como é precioso ter alguém nos ensinou a caminhar.. e que no fim caminhou feliz.
A beleza de uma relação leve e forte ao mesmo tempo. A doçura foi traduzidas nas suas palavras sentidas. Lindo.
um beijo, gostei de seu espaço tbém e virei sempre.

Madalena Barranco disse...

Que encanto de pôr-do-sol, querida Jacinta... A riqueza da bagagem está na "vida vivida", que teve a alegria de unir o passado ao futuro. Seu texto me emocionou. Obrigada!

Beijos, MAdá
P.S.: Puxa, muito obrigada!! Claro, pode publicar o poeminha da "Brisa da Selva" em seu blog. Será uma honra para mim e toda a turminha do Morango.

JOICE WORM disse...

Tinha saudades de ti, Jacinta. Mas como o texto é grande, e que deveras ler, volto daqui a umas horas... Um beijo para ti, por enquanto.

Maria Maria disse...

Obrigada pela visita, amiga. Esse conto é lindo!!! Beijos

Claudinha disse...

Jacinta, adorei. O texto é literatura de primeira e me levou consigo nesta onda de setembro também.
Parabéns, beijo!

instantes e momentos disse...

Tudo muito bom. Parabens pelo blog
Maurizio

Dora disse...

A onda, que vai e vem no mar, levou o amigo. E a história linda, linda, ficou como que estagnada: os laços entre os dois parecem que vão perdurar, enquanto o movimento da onda continuar...
Belo texto, moça!!
Beijos para você!
Dora

adelaide amorim disse...

Bela história - e muito bem narrada, Jacinta. Como já disse alguém, o modo como a velhice é tratada (sem despersonalizar o velho, que continua sendo alguém e não somente um idoso) é um dos pontos altos do texto. Mas o que vai mais fundo é a poesia do relacionamento e a percepção de uma escolha cheia de beleza.
Beijo grande.

Beatriz disse...

A delicadeza da tua alma, amiga, permeia cada palavra deste texto/conto, onde a Poesia se faz na beleza das imagens que soubeste tão bem criar. Um presente para o nosso olhar, um mimo para o coração, um perfume para a alma!

Ficam flores e estrelas tecendo sorrisos na tua semana, um beijo no coração, e o desejo de que horas lindas e alegres venham a passear nos teus dias.

Osc@r Luiz disse...

Olá, Jacinta,

Não poderia ter chegado em melhor hora.
Afinal, no sugestivo "dia do amigo", nada melhor que cultivar uma nova amizade...
Afora a sua gentileza da visita e das palavras, você tem credenciais sobrando: Saramar, Loba, Lunna, Claudinha...
Seja sempre muito bem vinda, porque sempre que meu escasso tempo permitir, voltarei também a esse seu blog recheado de poesia.
Tenha uma linda semana.
Um beijo e muito obrigado!

Osvaldo disse...

Cara Jacinta;
Quando a ficção se entranha na realidade, oferece-nos contos ternurentos como este que a Jacinta nos brinda.
Quando a literatura é doce e cristalina como a que a Jacinta nos tem habituado, até as letras tem o seu quê de felicidade...
bjs e um abraço para Vila Velha (ES) cidade de gratas recordações.

vero disse...

Olá Jacinta
venho agradecer e retribuir a visita ao meu blog, muito obrigada.
Em breve irei privatizar o meu blog no entanto irei enviar um convite para o seu e-mail a fim de o poder visualizar se assim o entender :)

Beijinhos

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

Que lindo. amiga!
Emocionei-me, de verdade!
Que dia é melhor para tomarmos nosso chá-café-refri-suco?
Temos que ver a disponibilidade do Dauri e do JE... Seria um sonho!
beijo e ótima semana

Di disse...

Legal amizade surgir entre pessoas aparentemente incompatíveis. Os anos a mais dele podiam separá-los, e eles conseguiram suplantar isso. É, o amor (nesse caso fraternal) não é um sentimento preconceituoso.

Fiquei pasma dela prever o mês em que ele se deixaria levar pelas ondas. =/

Adriano Caroso disse...

Embora triste, muito linda esta história. De deixar a gente com lágrimas nos olhos. Muito obrigado pelos votos no dia do amigo esperando que todos os seus dias sejam muito felizes. Beijos!

Vieira Calado disse...

Passei para ler e agradecer a sua visita.
Bem haja

Vanda disse...

Bonita história!
tantas que a vida nos conta!

boa semana

Jacinta Dantas disse...

Oi Vanda,
obrigada pela visita no meu florescer. Você tem um blog?

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

Amiga
Hoje é diade rir...
Vá conferir a história quando puder.
beijo

Germano Xavier disse...

Algo me fez lembrar meu pai, sempre insistindo para que eu continuasse, indo ou voltando, triste ou alegre, mas ir, finalmente ou com direito a retorno, mas ir...

A Suzana e o Pedro são, no fundo e na face, a mesma pessoa. há um ódio que ama e um amor que odeia.

Sempre bom vir aqui te ler, Jacinta. Deixo um abraço de estima.

Germano

Fernando Rozano disse...

e a palavra aqui flui, natural, bela e criando palavras e entrelaçando-as em sensível escrita. texto extraordinário, Jacinta. meu abraço sempre carinhoso.

F. S. Júnior disse...

tem um quê de fantástico, bem típico da literatura latino-americana... me lembrou O Carteiro e o Poeta... muito bom...

Layla Lauar disse...

Jacinta que conto maravilhoso,!! quanto lirismo..pura poesia em forma de prosa. Encantada e emocionada. Amei, amie, de verdade.

(amiga..fácil trocar o template do seu blog..sei onde tem modelos lindos..e te ajudo, você não tem o sistema de haloscan e nem muitos elementos aqui, facilita troca. Se estiver interesada, me mande um email: laylamg14@gmail.com - terei prazer em ajudar)

beijos mil e obrigada pelo seu carinho lá no blog.

Lunna Montez'zinny disse...

É caríssima, seu texto me permitiu uma gentil reflexão a cerca da minha pele no momento. As vezes precisamos aprender a deixar as pessoas seguirem ondas douradas. Acho que o medo de não ter algo para todo o sempre faz com que não aproveitemos os momentos existentes...
Seu texto me permiti, como de costume, um olhar das alturas. Belo texto. Abraços meus...

Confucious disse...

"Por que essa parte vivida intensamente não constara no livro?"
Talvez um livro não expresse em sua magnitude, momentos presenciados. Estes momentos só podem ser sentidos pelos indivíduos que os vivem. O que podemos ter é apenas uma parcela desse sentimento que é refletida nas palavras de um livro. Tomou conta de mim uma grande paz ao ler esse seu texto.
Desculpe não poder ter vindo anteriormente aqui, é que como seu texto é um pouco mais longo que os demais, eu preferi deixar para um momento que tivesse tempo suficiente de digerir cada palavra. Obrigado pela visita

Abraços,
Confucious

http://escolha-dificil.blogspot.com

NANDO DAMÁZIO disse...

Deu uma sensação de nostalgia este final ..
O texto todo foi lindo e poético, mas a melancolia do fim de tarde foi bem marcante !!

Abração !!

RAMOSFOREST.ENVIRONMENT disse...

Lindo texto.

Georgia disse...

Obrigada pela visita e como vc pediu já contei tudo lá na minha Saia onde estivemos.

Amei o seu conto, a amizade nele exaltada, o amor nas palavras, os desejos..., embora um final melancólico. Mas lindo!

Abracos

loba disse...

nossa, que lindo! que texto mais lindo, menina!
a história me fez lembrar uma outra onde tudo é muito parecido, inclusive os laços que ficam apesar das ausências!
adorei!!!
beijocas

*andorinharos@ disse...

Bom dia querida!
É sempre um raro prazer vir aqui e me fartar destas delícias! Me perco nos teus textos, sempre muito inteligentes e edificantes! parabéns.
Um abraço apertado desta amiga e fã.
obs.
Ando ausente, por problemas técnicos. Minha VELOX, dois meses fora do ar!