27.7.09



Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e, quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector

9 comentários:

Anônimo disse...

...vidas com nós!

Mai disse...

Dizer o quê acerca das águas e das vidas sedentas?
Simplesmente É isto e isto é a vida nua.

Jacinta eu adorei a tua arte e nela eu vi um Bem-te-vi.

Beijos, querida.

Miguel S. G. Chammas disse...

Jacinta,no alvo. Vc conseguiu no emaranhado das letras retratar a agitação dos tempos modernos.
A água que de tão escassa não mata a sede de quem quer viver.
E o risco,ao contrário do caos das letras, está calmo, sereno, como a brisa leve que beija a face da poeta.

Jens disse...

Oi Jacinta.
Lembrei de Caymmi:

"O amor acontece na vida
Estavas desprevenida
E por acaso eu também
E como o acaso é importante, querida,
De nossas vidas a vida,
Fez um brinquedo também!"

Acho que é por aí. Quando se tenta racionalizar, adeus paixão.

Um beijo.

Osvaldo disse...

Jacinta;

Neste belo e doce amaranhado de palavras, saem cores que compõeem um terno amaranhado de cores...

Estou ficando fã da sua arte.
bjs
Osvaldo

Dora disse...

Jacinta...Você colhe trechos indizíveis! Este "estar distraído" na vida é um traço do jeito de pensar de Clarice. E já reparou que é assim mesmo? "Forçar a barra" na procura das explicações e racionalizar sensações...desmancha o encanto, como se a realidade fosse feita de nuvens.
Adoro reler fragmentos que mexem comigo...como esse...
Abraço bem apertado!
Dora

VeraBasile disse...

Estava c saudades de ler esse texto...é tão verdadeiro isso!
É só parar pra tentar dar nome e pronto! Já acabou..rs...
Bjssssss

Opuntia disse...

Como é bom reler Clarice! Não sei como ela consegue complicar e simplificar ao mesmo tempo!

Euza disse...

Gosto um tantão qdo vc traz recortes de Clarice. Não apenas pelo como e o que ela diz - que é sempre excepcional. Mas tb pq mostra um pouco de vc. Afinal, somos tb o que escolhemos né?
Beijocas