30.9.09

A FRENÉTICA DANÇA DOS TIJOLOS

Do alto da pedra ela escuta, no peito, a força das marteladas que transforma, lentamente, um gigante em poeira. Não há pressa na desconstrução do espaço que adornara a alegria de tantas manhãs dominicais. No coração, a imagem nítida da palavra que ofuscara o brilho de seus passos. Dias angustiosos se seguiram ao toque do – derrubar, derrubar, derrubar – demarcado no compasso da perda. Perda do encontro, perda da emoção dos braços abertos somada à dor de não saber onde Ele ficaria. Difícil demais para a menina apreender tantos movimentos: De um lado, o lugar de contentamento se reduzindo a escombros de suas expectativas; o pai, comendo do alimento frio na marmita, homens cautelosos na destruição. Do outro, lá embaixo, a agitação dos operários que obedeciam ao comando _ Temos pressa, vamos erguer essas paredes. Apreensivo, o olhar atento e inocente registrava a frenética dança dos tijolos, vários ao mesmo tempo, pulando de mão em mão, muitas mãos, sendo colocados com delicadeza, entremeados à massa, transformando-se num imenso mosaico avermelhado.

11 comentários:

Bordados e Retalhos disse...

E eu não sei que LA agradece a propaganda. No Rádio tantas vezes tomei cuidado em não fazer esse marketing que agora relaxei, mesmo sabendo que blog é mídia. Paciência.
Não consegui identificar as histórias que conheço nesse texto de hoje. Talvez tenha lido com um olhar mais cansado da lida e das preocupações do dia.

Bjs

Euza disse...

As contradições da vida moderna!
Seu texto, poética e lindamente elaborado, me fez lembrar das montanhas que circundam a minha BH. Aparentemente maravilhosas, mas tristemente escavadas onde a vista não vê.
Como sempre, vc usando a poeia pra mexer na consciência, né? Gosto disso!
Beijocas

CeciLia disse...

Que lindeza triste.
Derrubando lagriminhas, aqui, com teu texto.

Belo!

Fernando Rozano disse...

narrativa sensível e sobretudo uma bela alegoria dos nossos dias, por vezes assim, triste e cinza. beijo.

Eurico disse...

Delicadamente vc nos conduz para a crítica de nosso modelo de crescimento, de civilização.

Abraço fra/terno.

Jens disse...

Oi Jacinta.
Ressalto, como outros leitores já fizeram, a delicadeza dos teus últimos posts, onde registras a transformação (inevitável?) de um passado idílico. Bonito. E melancólico também.

Um beijo.

Mai disse...

Demolições e reconstruções. Desse olhar de perplexidade diante da desconstrução, você CONSTRUIU um texto belíssimo que, bela bela arquitetura das palavras, indelével ficará.
Este é o poder da palavra que constrói.
Nisto, Jacinta, você é mestra.

Beijos, amiga.

Anônimo disse...

Oi belo texto Jacinta...Gostaria de ver vc inscrita no concurso do 1º Encontro Nacional de Blogueiros...Quem sabe vc ganha?!
Boa sorte e forte abraço.

Ps.http://bethosides.blogspot.com/

Francisco Sobreira disse...

Nós não sentimos apenas a perda das pessoas que amamos. Sentimos também a destruição de um prédio (um cinema, por exemplo) que nos proporcionou momentos belos e inesquecíveis. Você não diz o que foi destruído e que partiu o coração da menina. Mas captou e registrou muito bem a dor da perda dela. Um abraço.

Soninha disse...

Olá, Jacinta!

Nossa realidade é tão dura...Nossa sociedade, tão injusta, ainda...
As crianças, que teriam de aprender os valores que farão delas adultos bons e justos, tem que se deparar com tamanha desigualdade.
Porém, daqui deste jardim, podemos ver esta cruel realidade, de uma forma poética e delicada.
Lindo!
Muita paz! Beijossssssssss

Zeca disse...

Jacinta,

à medida que as mãos do homem vão destruindo a natureza que encanta os olhares infantís, Ele, mesmo surpreso com a insensibilidade dos construtores, respeita seu livre arbítrio e estará sempre, em algum lugar, com seus braços abertos, pronto para nos acolher e proteger.
E mesmo dentro do caos de uma (des)construção, o olho infantil poderá perceber a arte criada delicadamente pelas mãos brutas que (des)constroem...

Beijos. E apertos.