26.9.09

O MOMENTO IDEAL

No alto da pedra o lugar à espera. Pais e mães saiam de lados distantes carregando seus filhos pelas estradas do recém loteamento em que se transformara a antiga fazenda. E, no alto da pedra, a fusão de vários em um só povo para louvar, agradecer e pedir. Gente vinda de cantos diversos de Estados vizinhos em busca de um canto para manifestar a fé e apaziguar o coração. Aos domingos, pela manhã, era o momento ideal. Para chegar às 07:00, era preciso ser acordado pelo sol e seguir a senda matinal, no corpo infantil sonolento que seguia os passos nos infindáveis quilômetros entre o tabual que se estendia ao longo da estradinha de terra, com suas folhas longas e suas espigas marrons. Gente miúda que não alcançava a importância daquela peregrinação, marchando na esperança, às vezes nos ombros de Pai, quando as poucas pernas não davam conta do próprio caminhar, mas seguindo com seu olhar admirando os beija-flores que se aninhavam na paina. Aos poucos, a indisposição inicial virava festa e a pedra, imensa pedra para o olhar vívido inocente em seus poucos anos vividos, tomava a dimensão da exata procura por Ele que lá estava, pontualmente – de braços abertos – nas músicas, no ritual, na mágica plenitude de alegria que a sustentava pelos 07 dias seguidos... até o próximo feliz encontro.


PS: Taboa é uma planta que se alastra em beira de lagoas e brejos.

11 comentários:

Miguel disse...

Jacinta, linda e bucólica descrição de uma cena rural cheia de fé e amor.
Gostei muito.

Bordados e Retalhos disse...

Ah essas histórias...são as nossas contadas por vc numa arte linda de ler. Ah, vc sabe que no meu caso não são somente 10 quilos a mais...Rsrsrs
Bjs

Mai disse...

Encontro de gerações, amiga, integração. Isto é ideal.

Eu realmente gosto desta tua proposta de arte em formas e cores. Desenho livre. Encontro de todas as formas e todas as cores.
Integração das diferenças.

Beijos,

Opuntia disse...

Ele sempre está, mas há pessoas que precisam aprender a enxergá-Lo.

Belo texto!

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Jacinta, impossível não imaginar o lugar, as pessoas, as paisagens diante sua narrativa...bucólico é a palavra mais adequada mesmo...
Um abraço na alma e parabéns pela forma...um bjo

Jorge Elias disse...

Fiquei me recordando da infância.
As camas e travesseiros da roça revestidos com aquele "algodão" retirado da taboa (não sei o nome correto).
Ainda hoje adoro passar por locais que apresentem um tabual com suas eflorescências amarronzadas...

Grande abraço,

Jorge

Francisco Sobreira disse...

Mais um texto que me pareceu uma evocação da sua infância, que nunca lhe saiu da lembrança, apesar de você não aprrender o sentido daquela peregrinação dominical, mas sabendo apreciar o que a natureza lhe oferecia. Um abraço.

Beti Timm disse...

Jacinta, andei junto com vc esse caminho mágico, cheio de lembranças e muita saudade. Parece ser um pedacinho de vc.

Beijos

Plinio Uhl disse...

Embora a infância não encontre sentido, nossos pés, já adultos, sempre se lembram do caminho.

Bjo.

Francisco Dantas disse...

Jacinta, sua narrativa me faz lembrar as caminhadas do tempo de infância, quando, com minha mãe e meu irmãos, iamos visitar algum parente em sítios do interior. Ainda hoje trago nas ventas o perfume do mato pisado e dos pés de muçambê e mufumbo. Gosto de sua escrita. Grande abraço.

Zeca disse...

Jacinta,

esses retalhos de vida, de infância, me levam aos meus próprios retalhos, à minha própria infância, à minha própria vida... lindo!

Beijos.