5.9.09

NO SILÊNCIO... O GRITO

_ Eu quero ser ladrãããão... ressoa em meio aos cheiros fortes do lixo que percorre o canal, numa voz sorridente, inquieta, fantasiando uma batalha no lugar onde se deposita tudo o que não se quer do lado de dentro. E, ali, onde o fora se confunde com o lado de dentro, na água apodrecida pelos descuidos de muitos, envolvem-se menino e cozinha nos cheiros misturados ao sabor do feijão, deteriorando possibilidades de sonhos. _ Eu quero ser ladrão, palavras que saltam com determinação na inocência de apenas 05 anos “vividos”, mas que já percebe a incursão de homens que se revezam em máscaras – caça e caçador – camuflando a dura e triste realidade daqueles que fazem do viver uma desventura na vida clandestina ou em amontoados de seres contidos à força. Meu Deus! Há tão pouco tempo ele irrompeu, do conforto do útero materno, brotando para um mundo que deveria lhe reservar um universo de possibilidades. Mas, na brincadeira do assalto, a sedução: ... _eu quero ser ladrão.

...

No silêncio, o grito

14 comentários:

Dauri Batisti disse...

Muito bom Jacinta, texto muito bom. Você conjuga sua sensibilidade social com a habilidade com as palavras.

Beijo.

Zeca disse...

Jacinta!

Belíssimo e contundente texto, que nos atinge e nos aflige, deixando esse gosto amargo que não sabemos como fazer desaparecer.
Eu, como o beija flor, continuo tentando fazer a minha parte. Será
suficiente?

Beijos. Carinho.

Bordados e Retalhos disse...

Seu texto me leva a refletir e perguntar como nós, (humanidade, sociedade) deixamos que isso acontecesse e os valores ficassem invertidos a nossa volta? Bjs

Amarísio Araújo disse...

Jacinta,

A tristeza dessa realidade gritante que a sua crônica narra rompe o silêncio da minha alma e me causa uma aflição.Ao mesmo tempo,a sua narrativa é tão plena de ternura e lirismo que me enche de esperança e vontade de fazer alguma coisa para que os gritos sorridentes de todos os meninos expressem a esperança de um futuro melhor para a humanidade.

Belíssimo post,minha cara.

Um lindo feriado pra você.
Abraços.

Francisco Sobreira disse...

Eis, Jacinta, um texto que mexe com a gente. Aquela criança, que, você bem diz, não faz muito tempo que saiu do útero da mãe, já revela, em alto e bom som, a "profissão" que quer ter. Pode ser que ele nem esteja consciente do que diz, mas o simples de fato de dizer é um dado preocupante, que você, lúcida e sensível, capta muito bem. E aquele canal pOluìdo è um cenàrio perfeito para a afirmativa daquele pobre garoto. Um abraço.

Mai disse...

É , amiga, esta e a escrita que dá voz ao povo.
Este é o grito do povo que sente fome e sede e que enlouquece...
Gritos de bocas caladas, gritos de gargantas cansadas de não ter voz.

Você é muito linda em sua escrita e em seu sentimento, amiga.
gritos que eu ouvi por tua voz escrita.

Abraços,

si disse...

salve, jacinta! bom passar por aqui, te agradencendo a visita, e ler este seu texto de ladrão de palavras e outras lavras, marcado pela consciência agônica, porque incomodada, porque indignada ,porque inter-relacional, de que o roubo é regra geral, numa civilização como a nossa, de modo que o "roubo" dos abastados, do ROUBADO "ladrão" infância, é apenas a caricatura de uma falsificação, um desvio caricarural, ridículo, hipócrita, cínico, e tudo ao mesmo tempo agora, porque é o mais que roubado, a infância, arranhando aqui e ali, as bordas, se não é dizer muito, das classes médias, já que o rico não entra nessa conta..
saudações
obrigado pela visita
luis de la mancha

Beti Timm disse...

Amiga,

que mundo triste este, que joga inocentes à deriva, enfrentando todo o tipo de horrores, que não poupam a tenra idade, que deixam cicatrizes definitivas e que nos deixa impotentes e covardes.

Lindo texto, forte, mas lindo!

Beijos e obrigada pelo carinho

Canto da Boca disse...

É inevitável a lembrança, enquanto te lia, a música do Chico Buarque, Brejo da Cruz, teimava em minha memória, uma das suas tantas letras-denúncias, que retratam o descaso de quem compete, imagina quantas vidas se perdem nos lixoes e nas ruas, praças e avenidas das cidades brasileiras? Uma sociedade que nao cuida das crianças (dos velhos, dos jovens...), nao se pode esperar muito dela, nao é mesmo?
E nós, o que fazemos para mudar essa triste realidade? Às vezes parece que estamos falando de situaçoes estranhas e alheias a nós, nao é?

Jacinta, obrigada pela visita ao Canto, foi um imenso prazer te ter lá, vá sempre que quiser, o espaço é seu.
Beijo grande!!

Euza disse...

São os modelos, minha querida. Estes que vêm de todos os lados. Parece que nossas crianças já não são mais crianças!
Belo texto!
Beijocas

Vanessa. disse...

Texto muito bom mesmo!

Miguel S. G. Chammas disse...

jacinta, eis-me aqui depois de uma pequena ausência e, lendo teu texto, senti na boca o amargo da realidade.
Nele você grita uma verdade, eu de mãos amarradas choro a minha inutilidade, outros, tenho certeza, se dele tiverem cinhecimento sentir-se-ão esbofeteados e, já acostumados, poderão até gargalhar.

Tatiana disse...

Olá Querida Jacinta...
Fiquei muito feliz em abrir a minha página de recados e lá está as suas palavras.
Estava com saudades de você!
E mais ainda em poder estar aqui lendo e absorvendo da grandiosidade de suas palavras!

Um beijo carinhoso

Ilaine disse...

No silêncio, o grito!
Lindo e triste texto, minha amiga.
Uma realidade que faz sofrer.

Abraço, com carinho