27.1.10

UM APELIDO IRRITANTE

Participando das comemorações de aniversário do verseiro, busco nas gavetas entreabertas, algo que me remeta à infância vivida nos idos dos anos de 1970. Lembro-me agora de dois irmãos, gêmeos. Os meninos, órfãos de pai e mãe, soltos na vida que pareciam ser, tinham o poder de me amedrontar. Arruaceiros, como meu pai costumava dizer, viviam aprontando, perambulando pelas ruas sem nenhuma obrigação. Achava esquisito que eles não fossem à escola, como eu e meus irmãos, mas ficava de olho na desenvoltura de suas peraltices. Um misto de medo, admiração e uma boa pitada de inveja me ligava àqueles dois. Enquanto eu e meus irmãos éramos proibidos de ir à lagoa sem a presença de mãe, eles se exibiam, tomando banho pelados, soltando pipa, descendo o morro num carrinho rolimã e participando das constantes brigas entre os meninos. Aos meus olhos, eles sempre saiam vencedores e vivenciavam uma liberalidade que me encantava. Mas, um deles parecia ter um gosto em especial: colocar apelidos em mim e ameaçar contar minhas travessuras para meus pais, fatos que me deixavam muito aborrecida. O que eu fazia para irritá-lo, juro que não lembro, acho que a implicância era gratuita (rsss) , o que sei é que certo dia, ele passou em frente a minha casa e num tom sarcástico, falou: tá enxergando bem olho de boi? Eita apelido que me levava às lágrimas. Naquele momento, no alto de meus 09 anos, levantei-me, deixei o medo de lado e fui atrás, num carreirão por entre a trilha que dava passagem pelo mato que separava nossas casas. Corri com toda energia de menina. Quando o alcancei, dei-lhe um empurrão, jogando-o na touceira de pinão (uma espécie de urtiga que em contato com a pele, causa uma queimação). O menino, branquinho que era, já estava com as costas, pernas e braços numa vermelhidão que lhe fez olhar para mim, pedir desculpas e ajuda para sair dali. Eu, entre a ira e a culpa, ofereci minhas duas mãos e o ajudei a se levantar. Voltei para casa morrendo de medo das conseqüências.

...

Nem é preciso dizer que, num lugar onde a população infantil era farta, logo consegui outro apelido. Afinal, a menina – aquela dos olhos grandes – conseguira enfrentar o menino valentão. E isso, para a meninada, era uma proeza.

8 comentários:

Elcio Tuiribepi disse...

Oi Jacinta...rsrs...na vida asvezes uma atitude dessas pode fazer uma enorme diferença...rs
Uma vez morrendo demedo enfrentei um menino que tinha fama de lutar judo...não sei o que me deu...parti pra cima dele e embolamos no chão...rs...nem sei quem ganhou ou perdeu, a unica coisa que sei é que hoje de vez em quando dá vontade de fazer uma coisa assim...chutar o balde mesmo...empurrar alguem numatouceira de pinhão...rsrs...mas ai vem a razãoe ficamos no talvez,q uem sabe um dia...rsrs
Eita...por isso é bom sercriança..rss
Valeu Jacinta...a comemoração continua...rs...bjo...valeuuuu

Mary disse...

Nossa, que história! Visualizei as cenas na cabeça e acho que as retrataste muito bem.
Toda menina, em algum momento de sua infância, teve vontade de fazer isso. Eu mesma fiquei lmbrando do menino que me dava empurrões pela rua da escola até em casa e eu só choramingava. Queria a tua coragem. Queria a tua proeza...
Muito bom te ler.
Como sempre.
Beijo.
:)

Mai disse...

Incrível, não é? Teus olhos são lindos, Jacinta e talvez ele invejasse isto. Espantoso como a força vem, não é? Adorei a história e você escreveu com o cuidado devido. Beijos, amiga. Fica bem.

John Doe disse...

Que saudades que tenho desses tempos sabe, eu era o garoto espero, calado, mas longe dos olhares da mãe, o mais bagunceiro hehehehe... adorava aqueles tempos...

Francisco Sobreira disse...

Um texto diferente dos que você geralmente escreve. Uma lembrança da infância, que, quase sempre nas ocorrências infantis, fica entranhada na memória da pessoa. Um abraço.

Fatima disse...

Olá Jacinta!
Que bom receber sua visita e volte sempre !
Eu tb já tive cada apelido na infância que vou te contar viu!
Bjs.

Ilaine disse...

Menina dos olhos grandes... E tão lindos.

Beijo

Eurico disse...

Os olhos, a menina, a alma, tudo cresceu e se transformou, de patinha feia em cisne...rsrsrs
Esses mesmos olhos fizeram sucesso no AO 2008, lembra?
Claro que lembra!

Beijos e flores!