20.9.08

NO FRIO DAS RELAÇÕES...NÃO HÁ AGASALHO QUE PERMITA O ABRAÇO
Na foto colorida, o rosto inocente do bebê, relembrando a felicidade dos dias felizes no seu início de vida, contrasta com o turbilhão de sentimentos que hoje torna sombrio e cinza o cenário da casa. Cada choro, cada bocejo, cada sorriso era celebrado com a criança que chegara para mexer com as estruturas da pacata família. Espaços modificados, rotina transformada, tudo para garantir que ele tivesse seu lugar naquele lar. Seria uma incógnita acolher alguém sem saber de sua origem? Quem pensou nisso? Pensar o quê quando o amor toca no primeiro olhar, no primeiro cheiro, no primeiro toque? E o menino cresceu entre os irmãos que poderiam ser seus pais e os pais com cara e disposição de avós. Na fase escolar os transtornos. O menino que circula o tempo todo, o menino que mexe com todas as crianças, a professora aborrecida, pais impacientes com a presença de um inquieto perto de seus filhos. E tudo vira reclamação, e todos viram especialistas e fazem prognósticos caóticos. E o menino repete a quinta série, repete a quinta série, repete a quinta série. Com estatura muito maior que a maioria dos meninos e meninas de turma , o caminho é a exclusão. Na desorientação, o apelo à escola, à psiquiatria, neurologia, psicologia. Anos de luta, contando e recontando a história de um menino e sua família preocupada com o seu destino. Mas, quando a locomotiva vem de dentro, rompem-se os freios, estraçalham-se os laços e o que fica é a incerteza. Gritos, insolência, desrespeito a tudo e a todos. Todos desistem. Agora, no então menino com 20 anos
...não há regras, não há autoridade, não há nada além dele e de sua vontade de agredir. Parece querer mostrar ao mundo que fora desrespeitado e todos no mundo são seus devedores. Para onde vai? O que será desse Ser que parece querer mostrar que o seu lugar no mundo é assim e esse é o Ser melhor que ele consegue ser. Onde está a falha? onde está a falta? Trancam-se as portas, fecha-se o sorriso. Já não há mais o menino e a esperança de que o tempo contribua para o seu amadurecimento. Todas as tentativas frustradas. Há um estranho no seio. O frio aumenta e não há agasalho que permita o abraço. E a família sofre, adoece e começa a entregar os pontos. Já não sabe a quem recorrer, mas sabe que ambos pedem socorro. Meu Deus!

Ainda bem que a estação fria não dura para sempre. Mesmo com o tom cinza da casa e as sombras do meio dia, a primavera anuncia dias bonitos.

28 comentários:

Dauri Batisti disse...

Nossa, Jacinta, eu queria ter palavras bonitas pra comentar este texto lindo e dolorido. Mas, daqui, o que posso dizer é que, talvez, um sentido, mesmo estranho, apareça um dia, dessa história toda. O problema é agora, eu sei, mas como você mesmo termina, a primavera anuncia dias bonitos.

Opuntia disse...

Quantos meninos iguais a esse encontramos na vida! Como sou professora, vivo situações semelhantes todos os anos, mas não perco a esperança. Sinto a responsabilidade que tenho nas mãos.
Com esse texto maravilhoso vc conseguiu exprimir mt bem as angústias que sentimos.

Bill Stein Husenbar disse...

Encantado.

É normal encontrar meninos assim.

Belissimo.

http://desabafos-solitarios.blogspot.com/

acqua disse...

Seu texto me fez fazer uma pausa para pensar em uma série de coisas. Afinal, você narrou uma realidade que está diante dos olhos de quase todos nós. Acho que é difícil encontrar alguém que não tenha de alguma forma "vivenciado" isso.
Mas o final deixa uma gota ou semente de esperança.
Mais uma vez seu texto nos leva a uma reflexão necessaria. Abraços meus e desejos de uma linda semana...

Madalena Barranco disse...

Querida Jacinta, nada é mais gelado do que o inverno da alma... Por isso, viva a primavera de todas as flores humanas. Belíssimo texto.

Beijos.

VeraBasile disse...

Oi Jacinta!
A sociedade está repleta de excluídos...pessoas que não estão aptas a conviver, se relacionar com o dito "normal" estipulado por nós mesmos...e quantos de nós mesmos, não deixamos de viver situações, pra não sair fora da "normalidade"...e sermos aceitos.
Tenho certeza de que sempre há um caminho para a inclusão, por pior que seja o caso. Desejo que a família não esmoreça com tantos fracassos e que encontrem um lugar ao sol, pra esse rapaz.
Bjs
ps: Obrigada pelo comentário no DT...estou um pouco sem tempo pro virtual, mas penso que mudei mesmo o rumo, vc tem razão!

APPedrosa disse...

Jacinta,
faltam-me palavras para descrever esse lindo texto que me apertou a alma quando li. Parabéns. beijos,
Ana Paula

Jorge Elias disse...

Prezada Jacinta,

O sentido dessa história (fazendo uso das palavras do Daurí) também desconheço.
O motivo e as consequências me parecem claras.
Infelizmente, nem todos botam os mesmos olhos sobre a primavera e, por isso, penso que a realidade persistirá dura e desleal.
Obrigado por suas palavras em meu Blog.


TEXTO QUE VALE À PENA

Xavier disse...

eu sei muito bem o que é isso, Jacinta. tenho um amor fantástico e ele sempre me diz coisas.

senti o texto e foi como eu o tivesse escrito.

um carinho.

Ilaine disse...

Jacinta!

Pobre menino... e tantos outros. Fui professora e tenho dois filhos, sei o quanto é importante a compreensão e a aceitação. Aceitar o aluno como ele é- com seu talento e com suas dificuldades- é fundamental.

Lindo texto, como sempre!

Beijo

bia de barros disse...

Amor:
É a razão por que escrevemos ainda.
Se alguém nos tira essa lente,
Já não vemos o mundo do mesmo jeito.
Talvez, jamais o vejamos outra vez
Com as lentes do menino que grita
da criança que chora
Nos nossos ouvidos insensíveis
por natureza.

abraços, florzinha x)
*=

f@ disse...

E o agasalho mais quente e protector é mesmo o carinho do abraço...
o Abraço em todas as estações do ano...
beijinhos das nuvens

Beatriz disse...

Há tempos não aparecia por aqui, mas hoje que o fiz atualizei a leitura e pude constatar que tua escrita continua como sempre, intensa e verdadeira. Ah, minha amiga, esta postagem de agora nos traz doídas reflexões sobre um problema que se tornou comum e que não vemos, pelo menos a médio prazo, uma solução viável. O pouco que fazemos, como cidadãos conscientes de nossas obrigações, e movidos também pela solidariedade aos menos aquinhoados da sorte, muitas vezes nos parece uma gota d'água nessa imensidão de necessitados de ajuda de toda ordem. Há que se acreditar que a Primavera um dia há de chegar na vida destes jovens, no seio de suas famílias. Mas antes ela tem de chegar no coração dos homens, para alertá-los de que existem semelhantes que estão mergulhados no mais tenebroso inverno. Falta ainda muito amor no coração da humanidade.

Este é um texto, amiga, deveras sofrido, doído, com a marca da tua sensibilidade de ser humano que se preocupa com o outro.

Fica um ramalhete de violetas azuis atado no sorriso de mimosos anjos (eles estão sempre por aqui) e também um beijo no teu coração.

Clecia disse...

Quew texto bonito,Jacinta! Verdadeiramente uma prosa poética! :) Um abraço e boa semana!

Eurico disse...

Belo texto! Quero essa primavera, essa esperança, quero essa fé florescendo...está difícil a vida no planeta azul...
Abraço fraterno.

Layla Lauar disse...

Nossa este seu texto me emocionou por demais..trabalho com menores assim...

Você escreve bem demais, penetra pelos poros a sua escrita

estava com saudade de de ler você, mas ando tão perdida nas minhas horas, que nem tenho mais visitado meus blogs favoritos.

beijos

Francisco Sobreira disse...

Mais um belo texto, Jacinta, em que o tema e a escrita se casam perfeitamente. Um abraço afetuoso.

CRIS disse...

Oi, Jacinta,

Todas as indagações sobre a razão de "cairmos" em determinada família podem ser respondidas sob a ótica , por exemplo, da doutrina espírita. Qualquer que seja a ótica, a primavera, esperança, deverá trazer no seu bojo o amor.Terapeuticamente.

Beijão, linda.

Boa semana.

loba disse...

Na minha vida de educadora, vi muitas histórias como esta. Aparentemente, sai do nada o descontrole emocional. Só aparentemente. Os furos nas estruturas às vezes escapam a quem nelas vive.
Mas há sempre esperança. E há sempre um outro dia.
Belissimo texto. Triste que só. Mas real!
Beijos querida

jorge disse...

Voltei novamente!

Após ler seu texto escreví o poema abaixo.
Embora pense em melhorá-lo, não controlei o impulso de enviá-lo para vc.

---------

No entorno havia pensamentos.

Nada do que se diga
terá serventia
quando grudado no casco dos cavalos de ferro.

Espertas são as samambaias
que sobrevivem na eflorescência
das pedras.
(aproveitam a verticalidade dos muros
aonde não pisam os homens)

Ocupemo-nos da fuligem...

Enquanto tivermos pulmões
para soprar as pétalas,
exerceremos o ofício
temerário de celebrar a vida.

No entorno
existe uma carência
desesperada de gestos.

-------

Um grande abraço,


Jorge Elias

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

Ai Amiga
Mesmo que os filhos (agora) estejam encaminhados, ou quase, com saúde, respeitosos... tantas vezes nos perguntamos: onde foi que errei?
E seguimos sem saber a resposta...
Mesmo que não aja agressão, repetência, tudo acaba sendo tão normal, tão banal... mas não é!
Por isso às vezes peço perdão a Deus, pelo abraço que não dei, pelo ouvido às vezes fechado, pela palavra fraterna que não fui capaz.
Hoje vc me fez fazer longas reflexões, Obrigada, isto me faz sentir viva...
beijos, amiga querida

Paulo Vilmar disse...

Jacinta!
Nada mais aconchegante que um abraço, vale mais que tudo, quando faltam abraços, falta tudo, so mesmo o fim do inverno para prencunciar alguma mudança!
Beijos!

Mary disse...

Jacinta...
Após tanto sofrimento, espero mesmo que a primavera floresça nos corações como a estação da paz de espírito.
Um beijo enorme.

Jorge Elias disse...

Jacinta,

Fico feliz que tenhas gostado.
Fique à vontade quanto ao poema.

Abraços,

JORGE

Adriana Costa disse...

Jacinta,

seja sempre bem vinda ao meu cantinho! Deixou-me muito feliz o teu comentário! A Lunna é uma pessoa que mesmo com pouco contato, já adoro!

Beijinhos e flores @>--

Vou linkar teu blogue para eu ir lendo aos poucos, tá?

*andorinharos@ disse...

Minha querida Jacinta e sua sutileza em narrar estas estórias, que nos surpreende lembrando outras parecidas, dores iguais, vizinhas em casa triste. Muito bem escrito, todo detalhe mostrando dor e sentimento. Estava com saudades deste prazer que engrandece a alma de quem te lê!
Parabéns, parabéns e parabéns!!!

Giovanna disse...

Minha irmã, não sei o que dói mais, se o grito do seu menino ou o silêncio do meu. Emocionante o texto. Parabéns!

Luis Eustáquio Soares disse...

salve, jacinta, que desde parmênides "o ser é e o não ser não é" e, na verdade, desde antes dele, o ser que se considera mais ser sendo expande sua ontologia bélica, expropriando, sobre o território imaginário-afetivo-utópico dos seres que são pra não ser.
b
luis de la mancha.