31.10.09

CÉLULAS DESORDENADAS

Por aqui, o mundo chora. Chora, incessantemente doído, mantendo-me numa ilha de paredes úmidas. Em mim, vejo cheiros mofados invadindo o olhar inquieto de decisões para o futuro. Aprisionada, choro minhas dores em dores imaginadas nos que super popularizam as instâncias de passagem entre o provisório – que nunca acaba – ao definitivo que demora a chegar. Faço-me espelho nesse espaço em que não há espaço. Não há espaço para os amontoados em promessas de ressocialização, não há espaço para o restabelecimento da saúde, não há espaço para o curso, percurso que exige liberdade... não há espaço. Adoecidos, choramos o choro do mundo nas águas represadas em nós de angústias jogadas nesse candeeiro – autoforno de emoções – prestes a implodir ou explodir os diques desse sintoma social candente.

17 comentários:

Desmanche de Celebridades disse...

"Aprisionada, choro minhas dores em dores imaginadas nos que super popularizam as instâncias de passagem entre o provisório – que nunca acaba – ao definitivo que demora a chegar".

Simplesmente brilhante essa frase. O texto todo alias. Adorei o seu estilo de escrita. Vc também mistura prosa e poesia em textos curtos e muito densos.

Abraços.

Jens disse...

Apesar da náusea, é preciso acreditar que chegará o dia em que haverá espaço e o futuro radioso será o presente.

Beijo, Jacinta.

Osvaldo disse...

Oi, Jacinta;

Nesta bela tela desordenada, vem um poema triste de um desordenado mundo... mas que é um mundo real e o Mundo que temos.

Mas quando os diques das emoções são sólidos, nem todas as águas vertidas pelas lágrimas de um povo, poderão desmoronar as escolhas arquiteturais de um Deus Maior...

Bjs, Jacinta e abraça Vila Velha por mim,
Osvaldo

Francisco Sobreira disse...

É isso, Jacinta. No seu estilo peculiar de escrita, na sua forma sóbria, mas firme e enérgica, você expõe o momento convulsivo em que vive o mundo. Um abraço.

Cris disse...

Oi, Jacinta,

Teu texto chegou em mim como um grito do coração . São as impressões que as palavras deixam em nós.

Beijo , querida

Bordados e Retalhos disse...

Não dá pra desanimar, não nós que vimos tantas águas chegar e rolar nas nossas vidas. Bjs

Beti Timm disse...

Jacinta,

triste pensar que está tudo se fechando ao nosso redor e que a beleza terá que ser mantida a muito custo por nós.

beijinhos

Ilaine disse...

Amiga!

Senti você extremamente triste neste texto. Texto puramente belo: que toca, que emociona...

Beijo

Dauri Batisti disse...

O texto é denso, pesado, triste, mas é lindo. Você escreve tão bem estes estados de alma. Só você.

Osvaldo disse...

Oi, Jacinta;

Pena que o mundo chore, porque as cores alegres que você expõe, só nos transmite alegria e vontade de abraçar esse mesmo mundo, num abraço de ternura.

bjs, Jacinta,
Osvaldo

Eurico disse...

Tua mãe tem olhos pra ver o que não vemos. Mãe é mãe. Toda mãe alcança um pouco de Maria, a mãe das mães.

Abraço fra/terno.

Ana Lúcia. disse...

JáJá...
parece que o provisório que nunca acaba,
é virgula que anseia
ser ponto final.
Apesar da aflição
o compasso circunda paz.
Beijãozinho.

Soninha disse...

Olá, Jacinta!

Temos de acreditar que o futuro será melhor, através de gestos do presente.
Ter atitudes acertadas...buscar conhecimento...agir...
Mas, a natureza chora...chorou muito e inunda os corações com a desolação causada por sua manifestção de insatisfeita.
Bem...temos de fazer nossa parte.
Valeu, Jacinta!
Muita paz! Beijosssssssss

Partido do Eco-socialismo disse...

jacinta, incrível como o crível nos criva a todos, tal que convergimos nesse memória-rede, de polifonia de nós de nós, a escrevermo-nos, florescendo. belo texto, denso, afetivo, instigante.
te convido a conhecer os pés, lances de dado pra uma militância, a reiventar-se...
meuabraço,
luis

Marcelo Novaes disse...

Jacinta,


Prosa poética das boas, a sua. Não há espaço para o espaço. A frase bem apontada pelo "Desmanche de Celebridades" aponta para a tua leitura do Tempo, nessa equação. A "eternização do provisório" é Estupidez, com maiúscula.



"Não há lugar no espaço para o espaço".


Escrevi um poema com esse título.


Ei-lo:



Os quadros que se ergueram e se desbotaram
das chamas da lareira, eram quadros pênseis
que chegaram como chegam as névoas da noite.
Não há porque chorar. Não há porque sorrir. Não
há porque se desbotar. As teias tecidas ainda perduram
na memória. A memória sustenta mil história, mil quadros
suspensos em seu tear. E o amor que nos sustenta também é
halo, também é hálito. Também é vento. Muitas coisas não
palpáveis é que nos sustentam. E as cores que se partiram
no por do sol eram frágeis. Voaram. Levaram consigo
pedaços do céu. Os ouvidos perderam as falas dos
últimos noticiários. Guardaram os sons dos passos
da primeira namorada. Os olhos não se lembram
mais dos giros das tardes, mas dos passos do
baile de debutante. Assim são as coisas.
Seletivas. Cada vez mais exíguas.
Passos passados. As coisas se
espaçam, deixam lugar no
espaço. Até que o próprio
espaço possa nele se
abrigar. Não há
porque sorrir.
Não há
porque
chorar.
Não há
Espaço.







Marcelo Novaes







Beijos.

Rafael Castellar das Neves disse...

Chega a dar falta de ar!! Muito bom! Intenso e vivo!!

abraço,

Rafael

Paulo R. Diesel disse...

Passando para ler e deixar um abraço