15.12.09

NASCENTE DE NOVAS ÁGUAS


Nas árvores, nenhum sinal de alento. As folhas imóveis sinalizam o que ainda está por vir. Abafamento sentido nos sentidos que me parece alucinação. Os adereços natalinos, carregando seus galhos de belezas artificiais, evidenciam a ausência de enfeites em mim. Cara lavada, lóbulos solitários, dedos nus; quem sabe, herança do aprendizado mais que franciscano, apreendido como simplicidade. Sei lá. Mas o que isso importa agora? A favor, os encaracolados cabelos, naturalmente dispostos em cachos, e , nas unhas, ah! nas fortes unhas, uma demonstração de preocupação com os recursos para potencializar a beleza: vermelho sangue harmonizando com os raios laranja que anunciam o final de um dia quente, envolvendo-me na voz pausada, baixa e rouca. No espaço que me é familiar desde a infância, o contentamento de ver que pessoas se unem e podem comemorar em ouro o tempo que dedicam um ao outro. Aceito a festa e, agradecida, vejo-me feliz por escolher sair da letargia dominical e partilhar o que tenho, acolhendo o momento crepuscular como nascente de novas águas. Mesmo enrouquecida por regurgitações em lembranças relembradas, solto a voz e percebo a leveza percorrendo o coração que sou Eu.

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!

Cantar é preciso.


6 comentários:

Miguel S. G. Chammas disse...

Cantge com todas as forças, pois quem canta seus males espanta...
Faça do canto seu grito de guerra e o acalento dos seus antagonistas.

Mai disse...

"...adereços artificiais do natal."
Você é incrível. Parece que deixa coisas espalhadas somente prá fazer pensar...
Mas Cante sim, sempre. Lembrei do exercício e disciplina da voz que você me falou.
P.S.
Gostei da fotografia do template. ...caminhos e trilhas prá gente se achar...Esta imagem me lembrou um lugar em Grussaí, divisa entre o Rio e o Espírito Santo.

E teu desenho parece um passarinho cantador...
Beijos, amiga.
saudades de você.

Francisco Sobreira disse...

Gostei da forma que você utiliza, mostrando, num texto curto, como costumam ser os seus, o processo de transformação daquela pessoa que parece ter ido àquela festa sem muita vontade, tanto que vai despojada de adornos, ao contrário da árvore natalina; mas, ao sentir a alegria dos presentes, acaba por aderir à festa. Bom, pelo menos, foi isso o que senti e, repito, me agradou essa "leitura". Um abraço.

Bordados e Retalhos disse...

E como canta bem! Canta e encanta, seja na voz ou nas palavras escritas com ternura. Bjs irmã

Dauri Batisti disse...

"Cara lavada, lóbulos solitários, dedos nus; quem sabe, herança do aprendizado mais que franciscano, apreendido como simplicidade". Esta frase fcou linda demais.

No final o que salva é a música. Lindo.

Beijo.

VeraBasile disse...

Gostei muito Jacinta!!
E tb estou curtindo bastante seus desenhos!!! Bjs!:)