13.6.10

NESSA HORA, PRECISEI DE UM OUTRO

Já se passavam mais de 57 dias naquele lugar estranho, lugar onde todos que por ali passavam traziam no semblante o ritual de despedida. Pai de muitos filhos, educara sua prole nos ditames enérgicos dos anos 50-60-70. Até ao caçula, nascido em plena copa mundial de 1970, dispensara o mesmo tratamento na condução de sua educação. E todos os filhos estavam ali, aflorando as potencialidades de cada um no enfrentamento da hora terminal. De um filho, o choro perplexo diante do corpo que se desfigurara. Difícil para ele ficar mais de meia hora, nem uma palavra, apenas a perplexidade. Do outro, que viera de longe, a paciência de escutar a fala nos momentos de desorientação. Das filhas, a presença constante e atualizadora dos movimentos que corriam e transcorriam do lado de fora. Da esposa, companheira de mais de 50 anos, a cumplicidade. Cada um, do seu jeito, levando como podia e sabia – o cuidado essencial – para aquele Ser que continua sendo parte-comparte-companheiro na aventura do viver. E se faz, então, a experiência da despedida. E se experimenta, também, a descrença e os questionamentos na espiritualidade vivenciada ao longo dos anos. Para quê tanto sofrimento? Nessa hora, precisei de um outro.

...


E vejo confirmada, no sofrimento, a importância da comunidade, irmã na fé e no compromisso, fazendo-se presente, acolhedora e agente transformadora nos momentos de crise e dor, participando da caminhada até a última porta dessa dimensão.


13 comentários:

Osvaldo disse...

Jacinta;

É nestes momentos em que todos, mesmo diferentes, são iguais.

Há a chegada, a caminhada e no fim a partida. E todos partirão.

bjs, Jacinta.
Osvaldo

Claudinha ੴ disse...

Jacinta, gostei muito!
No momento derradeiro, toda a fé faz a diferença. No momento em que se parte o cordão de prata, se desligam os laços da carne, do nascimento para o plano espiritual, a família , a comunidade são luzes no novo caminho a ser seguido. Belíssima postagem!

Pretendo voltar logo. Obrigada pela força!

Miguel S. G. Chammas disse...

Jacinta minha amiga, li tua crônica e imediatamente me lembrei de um conto que escrevi alguns anos atrás. "O Ponto final".
Nele descrevo, com pinceladas diversas, esse momento inivetável.
Esse conto está publicado no meu cantinho de rabiscos e com ele até ganhei um prêmio literário.
Valeu te ler e recordar.

paula barros disse...

Jacinta, me chamou a atenção essa frase - "aflorando as potencialidades de cada um no enfrentamento da hora terminal", nesses momentos é impressionante como cada um reage de forma bem diferente.

E quem tem amigos por perto sabe como é importante e mais fácil lidar com as dores e perdas.

abraço.

Joice Worm disse...

Tenho muita confiança na anterior existência, Jacinta. E só por isso, tenho muita conversa preparada para quem não pude estar junto nesta vida. Bem haja!
Um beijo grande, linda.

Éverton Vidal Azevedo disse...

Lindo, lindo texto Jacinta.
Parabéns pela participaçao.
Um bj!

Luma Rosa disse...

As histórias de vida não são em vão! E se alguém se foi desta vida e ficamos nós por aqui, a nossa responsabilidade é perpetuar a memória, preservando tudo que foi compartilhado, reciprocamente aprendido e repassar para as gerações futuras. Os irmãos de fé, a essa altura compreendem que além da lembrança da pessoa que se foi, também precisamos de conforto espiritual para podermos acreditar que vale a pena viver!! Beijus,

Bordados e Retalhos disse...

Lindo, fui lendo e visualizando tudo, o hospital, a dor, a despedida. Lindo também reconhecer a importância da comunidade. Ainda que caminhemos outras estradas jamais vamos esquecer nossa história e vivência na comunidade. Bjs

Francisco Sobreira disse...

É isso, Jacinta. Diante dos momentos terminais de um ente querido, é necessária para a pessoa a particpação de outras pessoas que a ajudem a enfrentar e superar esse momento difícil. Tive a sensação que foi uma experiência pela qual você passou. Um abraço.

orvalho do ceu disse...

OLá, querida
Obrigada uma vez mais por participar da NOSSA BLOGAGEM COLETIVA ESPIRITUAL e nos fazer muito mais consciente de certas coisas indispensáveis ao ser humano...
A essência da Fé é fazer-nos mais HUMANOS... vc realçou isto muito bem. Parabéns!
Bjs e muita serenidade pra vc.

Mai disse...

Caminhadas e destinos.

E assim eu te deixo meu carinho e agradecimento.

Beijos, amiga.

Jens disse...

Oi Jacinta.
Conheci os homens e os seus velórios. Já vivenciei experiências semelhantes em várias ocasiões. Na infância, com uma tia e o avô materno. Mais recentemente, em 2004, com o pai e, no início deste ano, com a mãe, de quem fui o companheiro solitário na hora da partida. Concordo contigo quando dizes que as cerimônias do adeus, com a participação daqueles que nos querem bem, conforta, consola e ajuda a reagrupar a integridade emocional que precisamos para seguir em frente.

Beijo.

layla lauar disse...

Bergerac em "A Morte de Agripina" escreveu :"E depois, morrer não é nada, é terminar de nascer" e eu creio nisso, no nascimento para uma outra vida, livre do corpo que nos aprisiona...

a morte é apenas a parteira.

muito bonito e profundo o seu texto.

beijo Jacinta